segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O exemplo da Suécia: restrição às drogas como cuidado social

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O sistema de controle de drogas de um país é uma construção complexa e na maioria das vezes controvertida. Desenvolve-se ao interior da própria cultura, em dado momento histórico e é influenciado por políticas sociais e legais. Esse controle se faz somente em parte através de leis e está mais relacionado a sua aplicação que a sua letra. Além disso, a política de saúde, de segurança social, de formas de manejo do desvio social e os aparatos judiciários são todos intimamente conectados ao sistema de controle.

O sistema de controle de drogas sueco é um dos mais debatidos nos anos recentes porque difere em muito do que ocorre no mundo e na Europa, em particular. Ele é muito mais restritivo e o uso de drogas não é tolerado. Na realidade, em 1977 foi declarado que um dos objetivos do sistema seria criar uma sociedade livre das drogas. Para a implementação desse objetivo, quantidade substancial de dinheiro foi alocada na prevenção e informação, na política de controle e no tratamento, os três pilares do sistema. Os indicadores disponíveis mostram que o número de dependentes químicos nesse país é relativamente muito mais baixo quando comparado com os da Europa.

Para entendermos o modelo sueco, é essencial discutir suas bases ideológicas e científicas. Um autor influente nesse sentido foi Nils Bejerot6, que fez distinção entre vários tipos de dependência, em especial do que denominou "dependência epidêmica". Nesse conceito, ressaltava que pessoas psicológica e socialmente instáveis, após influência direta de outro dependente, começam a usar drogas que não são aceitas socialmente, para obter euforia. Um ponto importante é o significado do termo "epidêmico", que mostra o caráter de doença com incomum alta incidência no tempo, no lugar e no envolvimento de pessoas. Além disso, Berejot7 inclui o caráter de contágio, ou seja, o fato de um usuário influenciar o outro. Ele considera que a epidemia do uso de substâncias tem alto grau de contágio psicossocial em que a disponibilidade da substância é o fator mais importante no desenvolvimento das formas de abuso. Uma vez que se organiza um grupo de usuários, cria-se uma subcultura da droga, o que contamina a sociedade. Isso explica o termo "contágio psicossocial" ou "pressão grupal". Esse contágio pode mesmo ser colocado numa fórmula "C=SxE, ou seja, o contágio é função das suscetibilidades individuais e da exposição.

Para Bejerot7, a suscetibilidade individual é difícil de ser influenciada, mas a exposição tem um papel importante nesse sentido. No seu ponto de vista, a sociedade deveria restringir o acesso às drogas e isso fará efeito no número de pessoas usando substâncias tóxicas. A política, portanto, deveria olhar para o usuário, que é a parte central da "corrente das drogas", pela sua influência direta em outros usuários. Os traficantes sempre serão trocados por novos traficantes dispostos a correr os riscos do dinheiro fácil. Os usuários, por outro lado, não deveriam ser repostos e sim ser considerados como o motor do sistema de prevenção: "Nós temos que aceitar o fato doloroso de que não faremos avanços decisivos a menos que o abuso de substâncias, os usuários e a posse pessoal de drogas sejam colocados no centro da nossa estratégia"3. Bejerot7 posicionase contra a repressão pelo sistema legal, mas acredita que os usuários deveriam ser responsabilizados por seu comportamento.

Outro aspecto conceitual importante é o da hipótese de "porta de entrada", significando que a maconha levaria à experimentação de drogas mais perigosas. Embora esse conceito seja objeto de grande debate científico, o fato é que o uso da maconha pode ser considerado, no mínimo, como fator de risco para a experimentação. Na realidade, um grande foco da política sueca é a maconha e em como desestimular o seu consumo.

Vale a pena olhar historicamente para outro fator que influenciou a política restritiva de drogas na Suécia: o desenvolvimento, por mais de um século, de ações relacionadas ao uso de álcool. Desde o século XIX, a Suécia adotou uma política repressiva, tendo como base a limitação de disponibilidade de bebidas alcoólicas. Esse é um modelo de sucesso, levando a que os suecos sejam o povo que menos consome álcool na Europa. O modelo baseia-se no fato de que o consumo total do álcool influencia o total de dano social causado pela substância. E sugere que, quanto mais indivíduos bebem numa sociedade, mais haverá bebedores pesados. Portanto, do ponto de vista da saúde pública, a melhor opção é manter o número menor possível de bebedores.

Esse modelo que mostra evidências de eficácia em relação ao álcool é usado para as drogas. Como resultado, a política de drogas foca em limitar o consumo total, começando com qualquer forma de experimentação. Portanto, uma grande parte da prevenção nesse país baseia-se em prevenir a experimentação da maconha. Um grande debate nacional criou uma percepção de risco bastante alto na população em relação a essa substância, tendo como consequência um baixo uso quando comparado com os outros países europeus.

Embora o uso de drogas seja considerado socialmente inaceitável, o objetivo da política não é punir os indivíduos. Ao receber cuidado e tratamento, o usuário deveria se tornar livre das drogas e ficar reabilitado e reintegrado à sociedade. Por exemplo, se um indivíduo usa drogas em público, será encaminhado por uma assistente social para tratamento, se necessário, de forma compulsória. O país investe muito no tratamento para dependentes.

Nos anos oitenta, houve uma mudança conceitual importante do sistema, que passou a buscar reduzir a demanda de drogas na Suécia. O objetivo não mais seria mais atacar os traficantes, mas os usuários, considerados como a engrenagem do tráfico. O uso de drogas tornou-se criminalizado. Essa abordagem potencialmente permitiu identificar novos usuários e oferecer tratamento, o que, quando necessário, conta com ações do aparato policial. Na Suécia, existe uma boa relação dos policiais com a população e 12% do tempo deles são gastos com problemas de usuários e uso de substâncias. A força policial está focada no objetivo de ter uma sociedade sem drogas. Em 1988, o uso de drogas tornou-se crime nesse país, mas a penalidade para o uso não é a prisão, e sim, uma multa. Mais recentemente, a pena aumentou para prisão de até seis meses e a polícia tem vários meios a seu dispor para detectar o uso de drogas, mesmo que o indivíduo não tenha cometido nenhum delito. Os exames de urina para detecção do usuário são muito comuns e não parecem encontrar grande resistência por parte da população. Um bom número de usuários, especialmente de adolescentes, acaba indo para o sistema de tratamento dessa forma, não sem antes pagar uma multa.

O sistema legal sueco tem três categorias de punição à infração em relação às drogas: menor, normal e maior. Depende da droga e da quantidade apreendida. Quando alguém é identificado pelo teste de urina, recebe uma multa. Quando, além do teste, a pessoa tem posse de pequenas quantidades, a prisão até de até seis meses é uma opção, mas isso raramente ocorre, pois a multa é a penalidade mais comum na primeira ou segunda vez em que uma pessoa é flagrada. Um usuário apreendido várias vezes provavelmente será condenado a um mês de prisão. Quando alguém é apanhado vendendo drogas, será preso em todos os casos. Embora a lei não faça grande distinção entre usuários e traficantes, na prática a diferença existe. As infrações consideradas maiores recebem pelo menos dois anos de reclusão. A sentença máxima é de dez anos quando há posse de mais de um quilo de heroína ou de dois quilos de cocaína. A quantidade de drogas apreendidas por tráfico é relativamente baixa. A geografia do país dificulta o acesso, mas, com certeza, a fiscalização também é outro fator importante. Vale a pena salientar que existe uma grande pressão por parte da opinião pública em reivindicar maior controle social e legal em relação às drogas.

Como já citado, o objetivo da política sueca não é punir os usuários, mas oferecer reabilitação. O tratamento é um dos três pilares do sistema. Um conceito importante é o de "corrente de cuidado", que significa articulação dos elementos no sistema de tratamento: atividades de outreach (busca ativa de usuários), desintoxicação, cuidados ambulatoriais e internação. Os assistentes sociais são muito importantes nesse processo, pois são eles que fazem a busca ativa dos usuários e determinam quem deve se submeter ao tratamento. Dois tipos de assistência são disponibilizados: voluntário e involuntário, com grande diversidade de técnicas. O sistema de comunidade terapêutica domina e não é incomum um usuário ficar dois anos internado. No sistema compulsório, que é raramente utilizado, a pessoa pode passar até seis meses e o principal objetivo é motivá-la a se tornar voluntária no seu tratamento. A maioria do tratamento involuntário ocorre com adolescentes recalcitrantes.

Uma grande mudança ocorreu no sistema de tratamento nos anos oitenta, com o advento da aids. Diferente dos demais países europeus, a Suécia não adotou a política de redução de danos. O governo decidiu que, com o risco da aids, o melhor seria identificar rapidamente os usuários e oferecer desintoxicação e tratamento imediato. Houve uma grande expansão do setor de tratamento. A temida epidemia nessa população de usuários não ocorreu.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

“As armas são o problema?”

Este é um texto presente no site Red Phoenix, órgão de uma pequena organização marxista-leninista dos EUA, American Party of Labour. Portanto, o artigo formula o posicionamento da organização

Traduzi este texto porque:

1. É uma contribuição ao debate das armas, em geral.
2. É um elemento do debate das armas dentro da esquerda.
3. Expressa uma parte considerável da minha visão do problema, não integral.

Dentre aquilo que eu considero importante no texto, eu diria:

- O debate normalmente é superficial, supérfluo e parte de premissas idealistas. É necessário ter uma visão mais ampla.

- Partes do debate se aproveitam de tragédias para impulsionar suas agendas com argumentos rudimentares (“se não houvessem armas”/”se todos estivessem armados”) e/ou emocionais.

- As tragédias de tiroteios americanos (Columbine, etc) não são causadas por armas simplesmente, mas a discussão entorno disso desvia a atenção de uma avaliação das causas dessas tragédias. A alienação social (um afastamento, uma relação subjetiva disfuncional com a sociedade, “perda do lugar”…) é uma resposta mais acertada.

- Não existe uma relação direta e insofismável entre a quantidade de armas e os índices de violência. Isso varia justamente porque os índices de violência dependem de outros fatores que não a posse de armas.


INTRODUÇÃO: TRAGÉDIA, VIOLÊNCIA E DISCURSO BURGUÊS 
O americano médio não é estranho ao assassinato. Periodicamente, ouvimos falar de um outro crime sem sentido, um outro assassinato em massa, uma outra tragédia tirar a vida inocente. Como um relógio, sempre que um tiroteio de alto nível tem lugar nos Estados Unidos, dois lados de um debate incessante avançam sob as peças quebradas do rescaldo, oportunisticamente usando estas numa discussão relacionada com a política legislativa sobre armas de fogo. Por um lado, um grupo defende a restrição e proibição de armas de fogo, sobre o endurecimento das leis que limitam a posse e o uso de armas de fogo, a capacidade de seus cartuchos, o nível de escrutínio do governo em sua compra, venda e posse. Do outro lado, você tem um grupo que resiste a essas medidas, vendo como a liberalização total de armas de fogo, argumentando que os problemas relacionados com armas de fogo são o atraso moral e cultural das pessoas que as utilizam para o assassinato.
Ambos os lados ficam com o rosto vermelho com apelos emocionais, com um lado vislumbrando o outro como a face do mal puro, de ser o lado que coloca armas nas mãos de crianças , ou o lado que queima a Constituição e sua proteção do direito de ter armas de fogo.
Enquanto este debate floresce, enquanto ao mesmo tempo a psicologia pop e bodes expiatórios culturais são usados ​​para pintar os atiradores como vindos de outro planeta, a nós que buscamos uma solução não é dado muito para continuar nossos esforços para compreender e mudar os fenômenos da trágica violência. Claro que armas estão envolvidas, mas por que eles são apanhados em raiva com a finalidade do homicídio? Claro que esses assassinos em massa parecem instáveis, mas há algo na organização da nossa sociedade que os traz ao ponto de ruptura, em vez de em uma situação onde eles podem ser tratados? O debate das armas não vai, e não pode, começar a responder a essas perguntas. A razão para isso é que o debate das armas é uma distração, que ignora propositadamente entendimentos sistemáticos da nossa sociedade para uma disputa conveniente mas insignificante. É uma disputa que em última instância serve o poder, ignorando a violência sistemática e injustiças inerentes ao capitalismo.
AS DUAS UTOPIAS DO DEBATE DAS ARMAS
Vamos examinar as duas posições de nossos “debatedores das armas” e suas soluções para a violência. A multidão ” anti-armas ” iria se esforçar para se livrar dos meios que as pessoas usam para atirar uns aos outro, aumentando a dificuldade para os atiradores de adquirir armas de fogo utilizando rotas legais. Ao tornar mais difícil de por as mãos em uma arma, o argumento pode deduzir, torna-se difícil para alguém cometer com sucesso uma onda de assassinatos, e se a polícia e os militares são as únicas pessoas capazes de ter e usar armas de fogo, o suposto assassino pode ser mais fácil de parar [REALISMO POLÍTICO: Como se esses "atiradores em massa" fossem algum perigo para forças armadas; fora os atentados de faca da China, onde essa desproporcionalidade existe claramente e não é suficiente para salvar as vítimas]. Se “as armas são o problema”, então a sociedade dos utopistas anti-armas seria aquela em que nenhum civil tivesse a oportunidade de sequer tocar uma arma, muito menos possuir uma e usar uma, e, assim, ser uma sociedade mais segura por causa da falta de meios para cometer assassinato usando armas de fogo. Esta sociedade, “livre da violência armada”, é pouco provável. A razão para isso é simples: a criação de barreiras legais não vai impedir a posse ilegal de armas de fogo. Mesmo que as armas de fogo sejam proibidas, os principais usuários de armas de fogo ainda serão capazes de adquiri-las, ainda encontrarão oportunidades de usá-las e ainda têm à sua disposição uma indústria enorme que existe para colocar as armas em suas mãos.
O outro lado, quando examinamos a posição de lobbies de armas como o NRA, afirma que as armas não são tanto um “problema” como elas são uma “solução”. O argumento é que a violência armada é culpa dos ” elementos criminosos ” e que a solução é permitir mais “boas pessoas” a possuir e portar armas de fogo para se proteger de “pessoas más”. Eles também argumentam que qualquer violação do direito de ter armas, como esboçado na segunda emenda à Constituição, viola sua “liberdade”, e como tal, é condenável. Ignorando o argumento de “liberdade” e o argumento implicitamente racista das “pessoas más” por um momento, vamos considerar a análise do “pessoas más e boas”  e as implicações das armas de fogo nesta equação. Se as “boas pessoas” e “pessoas más” têm igual acesso a armas de fogo, o que necessariamente é alterado aqui? [REALISMO POLÍTICO: Justa a linha de raciocínio, apesar de podermos discutir um efeito de dissuasão] Em seu estudo sobre a correlação entre a posse de armas e violência armada, Gary Kleck não encontrarou forte correlação positiva entre a posse de armas e as taxas de violência armada (ou seja, nenhuma tendência forte sugerindo que mais a posse de armas = mais violência armada), por outro lado não houve evidências de uma forte relação inversa (ou seja, mais posse de armas = menos violência). Assim, apesar da noção implícita de que mais armas de propriedade de pessoas comuns  significa mais segurança para o resto de nós por meio de dissuasão, nós não temos nenhum motivo para sugerir que este será o caso.
[REALISMO POLÍTICO: É natural pensar sobre o estudo de Kleck e notar a fraqueza da relação ao compararmos um país europeu altamente armado com bons indicadores de violência com um país da África Central em guerra civil também altamente armado.]
Essencialmente, o que essas duas posições trazem são irrealistas “mundos ideais” e emocionalismo, políticas ineficazes para conter a violência e ignorância intencional da essência do problema. A multidão anti-armas continuará a berrar sua análise simplista do problema “arma” e da posição pró-armas, apresentada por muitos como reacionária, dizendo que o problema é o “elemento criminoso”, que vai ser resolvido por uma combinação de uma expansão do nosso sistema prisional já inchado e permitindo que aqueles ricos o suficiente para pagar um arsenal de armas para defender-se do “elemento criminoso”. Nada disso resolve nada nem responde as perguntas mais difíceis. Pelo contrário, ela regurgita duas posições, em última análise mansos e dóceis que são palatáveis ​​para o discurso político no capitalismo.
UM ARGUMENTO QUE EVITA O PROBLEMA
Vamos aplicar a lógica do debate arma para a questão da morte relacionada a veículos nos Estados Unidos. Em 2010, 32.885 pessoas morreram em acidentes de carro, em comparação com o 14.748 que foram assassinados no mesmo ano. E se tivéssemos este debate cada vez que um engavetamento de 20 carros matou um número de pessoas? Vamos considerar nossos beligerantes hipotéticos: o “anti carro” e “pro carro”. O lado anti carro pode querer aumentar a idade de condução a 25, colocar limitadores de velocidade e bafômetros em cada carro, ter carros guiados por trilhos e raramente conduzido. O lado pro carro pode encontrar algum argumento constitucional, pode-se argumentar que, se mais pessoas dirigirem carros, menos os pedestres estariam envolvidos em acidentes, e que o problema não são os carros, mas os motoristas irresponsáveis. Aqui está a pergunta que é ignorada, porém: por que temos tantos carros na estrada a colidir uns com os outros em primeiro lugar?
A resposta tem várias faces. Por um lado, deslocamentos demográficos urbanos levaram a deslocamentos mais longos para muitos trabalhadores, sendo necessário o uso de automóveis para chegar ao trabalho. Interesses petrolíferos e automotivo s poderosos têm trabalhado incansavelmente para proteger a sua hegemonia sobre transporte lutando contra os esforços para melhorar o transporte público, apoiando práticas econômicas neoliberais que escoram estas empresas e drenam o financiamento dos programas que possam oferecer soluções. O nosso sistema de transporte, contando com carros como o principal meio de levar as pessoas para o trabalho, é extremamente ineficiente, polui o meio ambiente, aumenta drasticamente o custo de transporte para as pessoas através da necessidade de manutenção periódica do veículo e é profundamente inseguro, ainda persiste porque da rentabilidade este sistema permite uma série de indústrias que desempenham um componente chave da nossa economia. Um debate “pro” x “anti” no campo da discussão política burguesa nunca vai resultar na sérias críticas do nosso sistema político e econômico, na apreciação da culpa do capitalismo nos problemas sociais que provocam a morte e destruição que homicídios e acidentes de carro trazem.
Os “Suspeitos Usuais” – Bodes Expiatórios no Discurso Capitalista
Ao invés de ver a tragédia como o resultado natural de problemas sistêmicos, a análise e o debate burguês preparou uma série de bodes expiatórios para atacarmos e examinarmos. Fora as armas de fogo em si,  videogames violentos e cultura da música violenta e filmes são apontados como uma causa para motivar a ação e dessensibilizar as pessoas que acabam atirando nos outros. Se não for um desses, é o problema da psicologia de um indivíduo, ou que é um problema de um bairro, maus pais ou más escolas em comunidades ruins. Quando chauvinistas raciais querem usar a tragédia como um pretexto para espalhar sua agenda, falarão dos imigrantes , negros ou outros grupos estereotipados como sendo “bandidos “. As “pessoas más” mencionadas anteriormente são vistas como sendo culturalmente, moralmente e intelectualmente atrasadas, sem vontade (mas não incapazes) para tirar proveito do ” sonho americano”. Além destes , os bodes expiatórios são os lados dos ” debates ” por eles mesmos, sejam “esses liberais do controle de armas ” que querem “criminalizar a auto-defesa” ou “malucos por armas tentado inundar nossas ruas com armas”. A controvérsia diária como tem se apresentado dentro da mídia burguesa está envolvida com a coreografia precisa, como uma cena ensaiada de uma novela.
Cada um destes bodes expiatórios é tomado a partir de uma disposição ideológica que beneficia o capitalismo. Individualismo, o chauvinismo racial, “políticos” sendo problema (em oposição à classe que, inevitavelmente, servem), “liberdades” que estão sendo ameaçadas (e um aceno sutil ao nacionalismo) – as cartas sendo embaralhadas neste baralho cada vez que uma tragédia torna-se o tema de debate são tão antigas quanto os próprios Estados Unidos. Cada vez que isso acontece, há um resultado semelhante: muita conversa, algumas leis remeidas no Legislativo, um protesto ou dois seguidos de silêncio, na esteira da próxima tragédia ou problema. Um novo dia amanhece em cada questão, enquanto as verdadeiras causas permanecem obscurecidas e as verdadeiras soluções estão fora do alcance. Esta é uma função, não um mau funcionamento, da democracia burguesa. Questões mais profundas são percebidas como o reino de “fora de questão”  dos radicais, porque a resposta para os problemas de um sistema não se encontram dentro da preservação desse sistema.
AS ARMAS INQUESTIONÁVEIS E SUA CONTAGEM DE CORPOS SANCIONADAS
Para ilustrar este ponto, vamos considerar alguns dos limites da “questão de armas”, como observado por seus debatedores na esfera pública. Quando o sargento Robert Bales assassinou 17 civis afegãos em um ato não-provocado de assassinato premeditado a sangue frio, o debate não se voltou para a ideia de que ter a arma era o problema. Ora, a questão do que ele e seus companheiros estavam fazendo no Afeganistão não foi levado tão a sério como deveria, apesar de uma recente pesquisa que sugere que 53% dos americanos acham que não deveriam estar lá e 68% que vêem a empreitada indo “mal”. Embora, a razão que esta questão não se transformar em um “problema de arma” é que presume-se que, para os soldados e policiais, a posse de armas e uso “não é o problema”, se cometer um assassinato ou não.
Vamos recordar Oscar Grant, que foi baleado nas costas e morto por um policial enquanto ele estava algemado e deitado no chão. A arma não é o problema para um policial, mesmo se o policial decide fazer de uma pessoa inocente uma vítima de assassinato. Os Estados Unidos são um dos principais fabricantes e exportadores de armas, dando armas aos rebeldes líbios que são prontamente utilizadas para matar os negros na Líbia. Existe um “questão das armas” lá? Não, claro que não, já que os Estados Unidos são  ”um farol da liberdade e da democracia” e qualquer um que recebe armas deles tem que ser um “cara bom”, sejam eas forças armadas de Suharto na Indonésia, Contras da Nicarágua, o Zaire de Mobutu Sese Seko, África do Sul do apartheid, Israel (que tem usado fósforo branco fabricado nos EUA para assassinar civis de qualquer idade). A lista continua.

O debate das armas conhece certos limites, porque, se fosse para cruzar essas fronteiras, os lados deste debate podem acabar defendendo uma posição que vai contra os interesses do governo dos EUA e da classe dominante. Se olharmos para os lucros da indústria e os gastos com armas os EUA, com armas grandes e pequenas, e como essas armas estão espalhados por todo o mundo e são usados ​​em genocídios, repressão do Estado e crimes em geral contra os povos do mundo, não teríamos que questionar o próprio sistema nos qual os Estados Unidos se constroem? Será que não temos que questionar o imperialismo, o colonialismo, o chauvinismo e exploração? A resposta é que teríamos, e é por este motivo que não podemos fazer certas perguntas dentro das “discussões educadas” do discurso capitalista.
CONCLUSÃO: SISTEMAS DE VIOLÊNCIA, ALIENAÇÃO E OPRESSÃO É QUE SÃO O PROBLEMA

Para entender o problema e se mover na direção de uma solução, precisamos entender estes sistemas maiores, que causam os problemas, e compreender o papel que desempenham na proteção do sistema capitalista e de seus lucros.

A pobreza, que é um produto do nosso sistema e é necessária para a preservação de um exército de reserva de trabalhadores essenciais para manter os salários baixos, é um componente importante da criminalidade violenta.
O racismo é também uma força que motiva a violência, que podemos ver no exemplo recente de Zimmerman, do assassinato de Trayvon Martin por ser negro e jovem no bairro errado.
O imperialismo exige armas e munições de todos os tamanhos para expandir a sua hegemonia, e as próprias indústrias têm um incentivo de lucro para colocar armas nas mãos de qualquer um que pode se dar ao luxo de comprá-las, independentemente de suas intenções.
violenciarmada  
A alienação e a dor que o nosso sistema capitalista traz leva as pessoas a “agir fora” (“surtar”), seja prejudicando os outros ou usando uma arma para acabar com sua própria vida, como Dimitris Christoulas, que se matou em em público enquanto carregava uma nota de suicídio detalhando a dor que as medidas de austeridade da Grécia lhe trouxera. Essas forças não são coisas que você pode legislar distância, não pode quebrar pondo um terno novo na Casa Branca, não pode ignorar, e certamente, não pode resolver tendo mais ou menos armas.
Compreender as origens do problema é o lugar por onde devemos começar. Pode não nos dar uma resposta simples ou conveniente, mas ele vai nos apontar na direção certa. A violência armada não acontece no vácuo, onde o único fator que pode provocar ou prevenir a violência são as próprias armas. Nosso mundo não é um mundo de questões independentes flutuantes, opiniões e ações divorciadas de todo o resto. Sistemas maiores, sejam eles econômicos, políticos, ideológicos ou culturais, têm influência sobre o que acontece em nosso mundo. Se nós fingimos que não é esse o caso, que a utopia pode ser encontrada na execução da “reforma certa”, ou prevenir um esforço legislativo, ficamos cegos para os mecanismos por trás de tudo. Quando fazemos o contrário, quando trabalhamos para entender nosso mundo para as suas partes componentes, para a sua natureza de classe, lutas e mudanças, as soluções para os problemas entram em vista.














domingo, 12 de fevereiro de 2017

A crescente militarização do país e o senso comum como proposta de intervenção

É revelador que, a cada nova crise de segurança, um nível superior de militarização é imposta no país.

Já aconteceu em algumas favelas do Rio de Janeiro com a entrada do exército, nos presídios, agora no Espirito Santo, também havia ocorrido em outros estados nos seus momentos críticos.

Não há reflexão sobre essas ações, suas consequências e muito menos oposição ao crescimento da intervenção federal com o aparato do exército sob justificativa de controle da situação.

Diante disso fica cada vez mais evidente a estrutura de segurança completamente falida e ditatorial que existe nesse país. Além de não resolver qualquer problema, e mesmo com o endurecimento, é só capaz de gerar crises maiores e a piora nos números sociais.

Na realidade é uma grande cortina de fumaça para esconder a profunda miséria social em que a população se encontra e o caráter completamente antinacional e antipopular dos governos que vem se sucedendo.

A proposta comum do brasileiro para a segurança é o aumento da brutalidade.

Uma policia violenta, com ações de extermínio, cadeias lotadas, tortura e por ai vai.

Imaginam que dessa forma os problemas serão resolvidos, ou seja, um pseudo medo na marginalidade seria gerado e por consequência a tranquilidade para o ''cidadão de bem'' seria estabelecida.

Não percebem que tais ações nunca funcionaram em lugar algum que, hoje, desfruta de estabilidade social. O aumento da repressão e selvageria por parte do Estado, ou mesmo da própria população no geral, não trará qualquer tipo de seguridade.

Se desenvolve um ambiente completamente inseguro e sem qualquer garantia legal, a violência é legitimada como modo de contenção e todos os problemas seguem piorando.

Tem que se travar uma luta ideológica, de conscientização, profunda sobre este tema. Porque enquanto os problemas relacionados à insegurança e violência forem vistos dessa ótica, as causas das mazelas sociais a qual vivemos continuaram camufladas.

Nova Esquerda: A vanguarda do fracasso

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Na realidade existe um processo de falência no âmbito cultural, comportamental e teórico dos movimentos que tratam de determinadas pautas sob o viés subjetivista, liberal e consequentemente individualista, representados pela nova esquerda.

Durante muito tempo as respectivas reivindicações destes movimentos foram sendo ouvidas e aceitas, aos poucos e de forma paulatina, as demandas se transformaram em realidade nos meios comunicação, intelectual e sociedade. Uma lógica de reprodução em níveis, do alto para baixo, as coisas ficaram aparentemente lineares.

Todavia, atualmente temos visto a decadência mais latente desses movimentos, as ações desesperadas que mostram por vezes a irracionalidade dos agrupamentos militantes, são o efeito da resistência e reação que vem crescendo dentro da sociedade contra essas pessoas.

A nova esquerda está sofrendo diversas derrotas:

-Seja na economia e suas propostas social-democratas, sem afetar os interesses dos capitalistas. Praticando ajustes fiscais e cortes nos investimentos em áreas fundamentais para a população pobre e trabalhadora, ao mesmo tempo em que defende recursos aos bancos internacionais.

-Seja no seguimento cultural e comportamental, ainda que não pareça, o pseudo assenso de músicas, moda, formas de relacionamento ou como se portar, defendidas por essas organizações cada vez mais evidenciam a ligação direta entre os grandes capitalistas, meios de comunicação e intelectualidade, ou seja, todo o status quo, com essas pautas, anteriormente ''não tão prioritárias'' no que se refere à publicidade e ativismo burguês.

Como a esquerda ligada à luta de classes (tradicional), está completamente de lado da história, principalmente as forças revolucionárias (completamente minoritárias), a extrema-direita, representando neste momento o único movimento politico contra o sistema, e, não raramente, pelo menos no discurso, contra o financismo internacional e a globalização especulativa, ganha a passos largos mais terreno, adeptos, e espaço institucional.

Enquanto o principal pugilista, a luta de classes, o problema nacional e da completa subserviência aos interesses do imperialismo continuar na lona, de férias e sem treinar, pode ficar certo que, em pouco tempo, veremos não só na Europa e Estados Unidos o tal ''medo'' dominando e crescendo, como também na América Latina.