quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O imperialismo cultural no finado século XX

por James Petras

INTRODUÇÃO 

O imperialismo cultural americano tem dois grandes objetivos, um econômico e o outro político: capturar mercados para as suas mercadorias culturais e estabelecer hegemonia pela modelação da consciência popular. A exportação do entretenimento é uma das mais importantes fontes de acumulação de capital e de lucros globais, deslocando as exportações manufactureiras. Na esfera política, o imperialismo cultural desempenha uma grande papel na dissociação das pessoas das suas raízes culturais e tradições de solidariedade, substituindo-as com necessidades criadas pelos media, as quais mudam a cada campanha publicitária. O efeito político é alienar pessoas dos vínculos tradicionais de classe e de comunidade, atomizando e separando os indivíduos um do outro. 

O imperialismo cultural enfatiza a segmentação da classe trabalhadora: os trabalhadores estáveis são estimulados a dissociarem-se dos trabalhadores temporários, o quais por sua vez separam-se dos desempregados, os quais são mais uma vez segmentados entre eles próprios dentro da 'economia subterrânea'. O imperialismo cultural estimula o povo trabalhador a pensar de si próprio como parte de uma hierarquia, enfatizando diminutas diferenças de estilo de vida, de raça e de género com as que estão abaixo deles, ao invés de estimular as enormes desigualdades que as separam daqueles que estão acima delas. 

O alvo principal do imperialismo cultural é a exploração política e econômica da juventude. O entretenimento imperial e a publicidade alvejam pessoas jovens, que são mais vulneráveis à propaganda comercial americana. A mensagem é simples e direta: 'modernidade' é associada com o consumir de produtos dos media americanos. A juventude representa um grande mercado para a exportação cultural americana e são eles os mais susceptíveis à propaganda consumista-individualista. Os mass media manipulam a rebeldia adolescente pela apropriação da linguagem da esquerda e a canalização do descontentamento para extravagâncias culturais. 

O imperialismo cultural enfoca a juventude não só como um mercado mas também por razões políticas: para cortar pela base uma ameaça política em que a rebelião pessoal poderia tornar-se revolta política contra formas de controle económico e cultural. 

Ao longo da última década os movimentos progressistas confrontaram um paradoxo: enquanto a grande maioria do povo no Terceiro Mundo experimenta padrões de vida em deterioração, crescente insegurança social e pessoal e decadência dos serviços público (enquanto as minorias abastadas prosperaram como nunca antes) a resposta subjectiva a estas condições tem sido revoltas esporádicas, sustentadas, excepto atividades locais e protestos em grande de curta duração. Numa palavra, há um fosso profundo entre as crescentes desigualdades e as condições sócio-econômicas por um lado e a fraqueza das respostas revolucionárias ou radicais subjectivas. A maturação das 'condições objectivas' no Terceiro Mundo não tem sido acompanhada pelo crescimento das forças subjectivas capazes de transformar o Estado ou a sociedade. É claro que não há relacionamento automático entre regressão sócio-econômica e transformação sócio-política. A intervenção cultural (no mais vasto sentido da expressão, incluindo ideologia, consciência, acção social) é a ligação crucial que converte condições objetivos em intervenção política consciente. Paradoxalmente, os elaboradores políticos imperiais parecem ter entendido a importância das dimensões culturais da prática política muito melhor do que os seus adversários. 

DOMINAÇÃO CULTURAL E EXPLORAÇÃO GLOBAL 

O imperialismo não pode ser entendido meramente como um sistema econômico-militar de controle e exploração. A dominação cultural é uma dimensão integrante de qualquer sistema sustentável de exploração global. 

Em relação ao Terceiro Mundo, o imperialismo cultural pode ser definido como a penetração sistemática e a dominação da vida cultural das classes populares pela classe dirigente do Ocidente a fim de reordenar os valores, o comportamento, as instituições e a identidade dos povos oprimidos para que se conformem aos interesses das classes imperiais. O imperialismo cultural tem assumido tanto formas 'tradicionais' como modernas. Nos séculos passados, a Igreja, o sistema educacional e as autoridades públicas desempenharam um grande papel ao inculcar os povos nativos com ideias de submissão e lealdade em nome de princípios divinos ou absolutistas. Se bem que estes mecanismos 'tradicionais' de imperialismo cultura ainda operem, novas instrumentalidades modernas enraizadas em instituições contemporâneas tornaram-se cada vez mais centrais para a dominação imperial. Os mass media, a propaganda, a publicidade, os humoristas e os intelectuais desempenham um grande papel hoje. No mundo contemporâneo, Hollywood, CNN e Disneylandia são mais influentes do que o Vaticano, a Bíblia ou a retórica de relações públicas das figuras políticas. A penetração cultura está estreitamente ligada à dominação político-militar e à exploração econômica. As intervenções militares americanas em apoio dos regimes genocidas na América Central, que protege os seus interesses econômicos, são acompanhadas por intensa penetração cultural. Evangélicos americanos financiados invadem aldeias indianas para inculcarem mensagens de submissão entre as vítimas do campesinato indiano. Conferências internacionais são patrocinadas por intelectuais domesticados a fim de discutir 'democracia e mercado'. Programas escapistas de televisão semeiam ilusões de 'um outro mundo'. A penetração cultural é a extensão da guerra de contra-insurgência por meios não-militares. 

NOVOS DISPOSITIVOS DE COLONIALISMO CULTURAL 

O colonialismo cultural contemporâneo (CCC) é diferente das práticas do passado em vários sentidos: 

1) Está orientado para a captura de audiências de massa, não apenas para converter elites. 

2) Os mass media, particularmente a televisão, invadem os lares funcionam a partir de 'dentro' e de 'baixo' bem como de 'fora' e de 'cima'. 

3) O CCC é de âmbito global e homogeneizador no seu impacto: a pretensão de universalismo serve para mistificar os símbolos, os objectivos e os interesses da potência imperial. 

4) Os mass media como instrumentos do imperialismo cultural hoje são 'privados' apenas num sentido formal: a ausência de ligações formais com o Estado proporciona uma cobertura legítimas para os media privados projetarem os interesses do Estado imperial como 'notícias' ou 'entretenimento'. 

5) Sob o imperialismo contemporâneo, os interesses políticos são projetados através de assuntos não-imperiais: foco de reportagens com notícias de biografias pessoais de camponeses-soldados mercenários na América Central e sorridentes trabalhadores negros americanos na Guerra do Golfo. 

6) Devido ao fosso crescente entre a promessa de paz e prosperidade sob o capital desregulamentado e a realidade do aumento da miséria e da violência, os mass media estreitaram ainda mais as possibilidade de perspectivas alternativas nos seus programas. O controle cultura total é a contrapartida da separação total entre a brutalidade do capitalismo realmente existente e as promessas ilusórias do mercado livre. 

7) Para paralisar respostas colectivas, o colonialismo cultural procura destruir identidades nacionais ou esvaziá-las de conteúdo sócio-econômico substantivo. Para romper a solidariedade de comunidades, o imperialismo cultural promove o culto da 'modernidade' como conformidade com símbolos externos. Em nome da 'individualidade', laços sociais são atacados e personalidades são remondadas em conformidade com os ditados das mensagens dos media. Enquanto as armas imperiais desarticulam a sociedade civil, e os bancos pilham a economia, os media imperiais suprem os indivíduos com identidades escapistas. 

O imperialismo cultura fornece devastadoras caricaturas demonológicas dos seus adversários revolucionários, ao mesmo tempo que estimulam a amnésia colectiva da violência maciça dos países pró-ocidentais. Os mass media ocidentais nunca relembram a sua audiência do assassínio pelos regimes anti-comunistas pró-EUA de 100 mil índios na Guatemala, de 75 mil trabalhadores em El Salvador, das 50 mil vítimas na Nicarágua. Os mass media encobrem os grandes desastres resultantes da introdução do mercado na Europa do Leste na ex-URSS, que deixaram centenas de milhões de pessoas empobrecidas. 

MASS MEDIA: PROPAGANDA E ACUMULAÇÃO DE CAPITAL 

Os mass media são uma das principais fontes de riqueza e poder para o capital americanos à medida que estende as suas redes de comunicações através do mundo. Uma porcentagem crescente dos norte-americanos mais ricos extraem a sua riqueza dos mass media. Dentre os 400 americanos mais ricos a porcentagem que deriva a sua riqueza dos mass media aumentou de 9,5 por cento em 1982 para 18 por cento em 1989. Hoje, quase um em cada cinco entre os norte-americanos mais ricos obtêm a sua riqueza dos mass media. O capitalismo cultural deslocou o manufactureiro como fonte de riqueza e influência nos EUA. 

Os mass media tornaram-se uma parte integral do sistema de controle político e social global americano, bem como uma grande fonte de super-lucros. À medida que os níveis de exploração, desigualdade e pobreza aumentam no Terceiro Mundo, as comunicações de massa controladas pelo ocidente operam no sentido de converter um público crítico numa massa passiva. As celebridades dos medias e do entretenimento em massa ocidentais tornaram-se ingredientes importantes no desvio da potencial inquietação política. A presidência Reagan destacou a centralidade da manipulação dos media através de altamente visíveis mas politicamente reacionários apresentadores (entertainers) , um fenômeno que se espalhou pela América Latina e na Ásia. 

Há uma relação direta entre o aumento do número de receptores de televisão na América Latina, o declínio do rendimento e a diminuição da luta de massa. Entre 1980 e 1990 o número de televisores na América Latina por habitante aumentou 40 por cento, enquanto o rendimento médio real diminuiu 40 por cento, e um conjunto de candidatos políticos neoliberais dependentes decisivamente de imagens de televisão ganhou a presidência. 

O aumento da penetração dos mass media entre os pobres, os crescentes investimentos e lucros das corporações americanas com a venda de mercadorias culturais e a saturação de audiências de massa com mensagens que fornecem aos pobres experiências de segunda mão de consumo individual e aventura define o actual desafio do colonialismo cultural. 

As mensagens dos media americanos são alienantes para o povo do Terceiro Mundo num duplo sentido. Elas criam ilusões acerca de obrigações 'internacionais' e 'trans-classistas'. Através de imagens de televisão são estabelecidas falsas intimidades e ligações imaginárias entre as pessoas bem sucedidas dos media e os espectadores empobrecidos nos 'bairros'. Esta ligação proporciona um canal através do qual o discurso de soluções individuais para problemas privados é propagado. A mensagem é clara. As vítimas são culpadas pela sua própria pobreza, o êxito depende de esforços individuais. As grandes TV por satélite, as saídas dos mass media americanos e europeus na América Latina, evitam qualquer crítica às origens político-econômicas e às consequências do novo imperialismo cultural que temporariamente desorientaram e imobilizaram milhões de empobrecidos latino-americanos. 

O IMPERIALISMO E A POLÍTICA DA LINGUAGEM 

O imperialismo cultural desenvolveu uma estratégia dual para conter a esquerda e estabelecer hegemonia. Por um lado, procura corromper a linguagem política da esquerda; por outro, atua no sentido de dessensibilizar o público geral para as atrocidades cometidas pelas potências ocidentais. Durante os anos 80 os mass media ocidentais apropriaram-se sistematicamente de ideias básicas da esquerda, esvaziando-as do seu conteúdo original e reenchendo-o com uma mensagem reacionária. Exemplo: os mass media descreviam os políticos que tentavam restaurar o capitalismo e estimular desigualdades como "reformadores" ou "revolucionários", ao passo que os seus oponentes eram etiquetados como "conservadores". O imperialismo cultural procura promover a confusão ideológica e a desorientação política revertendo o significado da linguagem política. Muitos indivíduos progressistas ficaram desorientados por esta manipulação ideológica. Em consequência, ficaram vulneráveis às afirmações daqueles ideólogos imperiais que argumentam que os termos "direita" e "esquerda" são destituídos de qualquer significado, que as distinções perderam significância, que as ideologias nada mais representam. Pela corrupção da linguagem da esquerda e distorção do conteúdo da esquerda e direita, os imperialistas culturais têm esperança de minar os apelos políticos e práticas políticas dos movimentos anti-imperialistas. 

A segunda estratégia do imperialismo cultural foi dessensibilizar o público; tornar o assassínio em massa pelos Estados ocidentais coisa rotineira, atividades aceitáveis. Os bombardeamentos em massa no Iraque foram apresentados na forma de vídeo games. Ao trivializar crimes contra a humanidade, o público é dessensibilizado da sua crenças tradicional de que provocar o sofrimento humano é errado. Ao enfatizar a modernidade das novas técnicas de travar a guerra, os mass media glorificam a elite do poder existente — as tecno-guerras do ocidente. O imperialismo cultural hoje inclui relatos de "notícias" em que as armas de destruição em massa são apresentadas com atributos humanos ao passo que as vítimas no Terceiro Mundo são "agressores-terroristas" sem rosto. 

A manipulação cultural global é sustentada pela corrupção da linguagem política. Na Europa do Leste, especuladores e mafiosos que se apossaram de terra, empresas e riqueza são descritos como "reformadores". Contrabandistas são descritos como "empresários inovadores". No ocidente, a concentração de poder absoluto para contratar e despedir nas mãos da administração e a acrescida vulnerabilidade e insegurança do trabalho é chamada "flexibilidade laboral". No Terceiro Mundo, a venda de empresas públicas nacionais a monopólios multinacionais gigantes é descrita como "ruptura de monopólios". "Reconversão" é o eufemismo para o retorno às condição do século XIX de trabalho despojado de todos os benefícios sociais. "Reestruturação" é o retorno à especialização em matérias-primas ou a transferência de rendimento da produção para a especulação. "Desregulação" é a mudança no poder para regular a economia do Estado Previdência nacional para a banca internacional, a elite do poder multi-nacional. "Ajustamento estrutural" na América Latina significa transferir recursos para investidores e rebaixar pagamento ao trabalho. Os conceitos de esquerda (reforma, reforma agrária, mudanças estruturais) eram originalmente orientados para a distribuição do rendimento. Estes conceitos foram cooptados e tornados símbolos para a reconcentração da riqueza, do rendimento e do poder nas mãos das elites ocidentais. E naturalmente todas as instituições culturais privadas do imperialismo amplificam e propagam esta desinformação orwelliana. O imperialismo cultural contemporâneo degradou a linguagem da libertação, convertendo-as em símbolos da reação. 

TERRORISMO CULTURAL: A TIRANIA DO LIBERALISMO 

Assim como o terrorismo de Estado ocidental tenta destruir movimentos sociais, governo revolucionários e desarticular a sociedade civil, o terrorismo econômico, tal como praticado pelo FMI e consórcios de bancos privados, destrói indústrias locais, desgasta a propriedade pública e ataca brutalmente famílias assalariadas. O terrorismo cultural é responsável pela deslocação física de locais de atividades culturais e artistas. O terrorismo cultural, aproveitando-se das fraquezas psicológicas e profundas ansiedades das pessoas vulneráveis do Terceiro Mundo, particularmente do seu senso de ser "atrasado", "tradicional" e oprimido, projeta novas imagens de "mobilidade" e "livre expressão", destruindo antigos vínculos com a família e a comunidade, enquanto ata novas cadeias de autoridade arbitrária ligadas ao poder corporativo e a mercados comerciais. Os ataques à moderação e obrigações tradicionais é um mecanismo pelo qual o mercado capitalista e o Estado tornam-se o centro final de poder exclusivo. O imperialismo cultural em nome da "auto expressão" tiraniza as pessoas do Terceiro Mundo temerosas de serem etiquetadas como "tradicionais", seduzindo-as e manipulando-as através de falsas imagens de "modernidade" sem classe. O imperialismo cultura questiona todas as relações preexistentes que são obstáculos a uma e única moderna deidade sagrada: o mercado. Os povos do Terceiro Mundo são entretidos, coagidos, excitados para serem "modernos", para se submeterem às exigências do mercado capitalista, para abandonarem o vestuário confortável tradicional por mal ajustados e inadequados blue jeans apertados. 

O imperialismo cultura funciona melhor através de intermediários colonizados, colaboradores culturais. O protótipo dos colaboradores culturais são os profissionais em ascensão sociais do Terceiro Mundo que imitam o estilo do seus patrões. Estes colaboradores são servis para com o ocidente a arrogantes para com o seu povo, personalidades autoritárias prototípicas. Apoiados pelos bancos e multinacionais, eles exercem imenso poder através do Estado e do mass media locais. Imitadores do ocidentes, eles são rígidos na sua conformidade com as regras da competição desigual, abrindo o seu país e os seus povos à exploração selvagem em nome do livre comércio. Entre os colaboradores culturais proeminentes destacam-se os intelectuais institucionais que negam a dominação de classe e a guerra de classe imperial por trás do jargão da ciência social objectiva. Eles fetichizam o mercado como o árbitro absoluto do bem e do mal. Por trás da retórica da "cooperação regional", os intelectuais conformistas atacam a classe trabalhadora e as instituições nacionais que constrangem os movimentos do capital — seus apoiantes são isolados e marginalizados. Hoje, por todo o Terceiro Mundo, o ocidente financia intelectuais locais que abraçaram a ideologia da concertação (colaboração de classe). A noção de interdependência substituiu a de imperialismo. E o mercado mundial desregulado é apresentado como a única alternativa para o desenvolvimento. A ironia é que hoje mais do que nunca o "mercado" tem sido menos favorável ao Terceiro Mundo. Nunca os EUA, a Europa e o Japão foram tão agressivos na exploração do Terceiro Mundo. A alienação cultural dos intelectuais institucionais em relação às realidades globais e um subproduto da ascendência do imperialismo cultura ocidental. Para aqueles intelectuais críticos que recusam juntar-se à celebração do mercado, que estão do lado de fora dos circuitos oficiais de conferências, o desafio é mais uma vez retornar à luta de classe e anti-imperialista. 

A NORTE-AMERICANIZAÇÃO 
E O MITO DE UMA CULTURA INTERNACIONAL 

Uma das grandes decepções do nosso tempo é a noção de "internacionalização" de ideias, mercados e movimentos. Tornou-se moda evocar termos como "globalização" ou "internacionalização" para justificar ataques a qualquer ou todas as formas de solidariedade, comunidade, e/ou valores sociais. Sob o disfarce de "internacionalismo", a Europa e os EUA tornaram-se exportadores dominantes de formas culturais que na maior parte conduzem à despolitização e trivialização da existência de todos os dias. As imagens de mobilidade individual, a pessoa "self-made", a ênfase sobre a "existência egoísta" (produzida em massa e distribuída pela indústria americana dos mass media) tornaram-se agora instrumentos importantes na dominação do Terceiro Mundo. 

O neoliberalismo continua a prospera não porque ele resolva problemas, mas porque ele serve aos interesses dos ricos e poderosos e vibra entre alguns sectores dos empobrecidos empregados por conta própria que pululam nas ruas do Terceiro Mundo. A norte-americanização das culturas do Terceiro Mundo tem lugar com a benção e o apoio das classes dominantes nacionais porque ela contribui para estabilizar o seu domínio. As novas normas culturais — o privado sobre o público, o individual sobre o social, o sensacional e violento sobre as lutas quotidianas e as realidades sociais — tudo contribui para inculcar precisamente os valores egocêntricos que minam a ação coletiva. A cultura de imagens, de experiências transitórias, de conquista sexual, trabalha contra a reflexão, compromisso e sentimentos partilhados de afeição e solidariedade. A norte-americanização da cultura significa focar a atenção popular sobre celebridades, personalidades e mexericos privados — não sobre a profundidade social, substância econômica e condição humana. O imperialismo cultural distrai da relação de poder e desgasta as formas colectivas de ação social. 

A cultura dos media que glorifica os reflexos 'provisórios' do capitalismo americano sem raízes — seu poder para contratar e despedir, para movimentar o capital sem respeito para com comunidades. O mito da "libertação da mobilidade" reflete a incapacidade do povo para estabelecer e consolidar raízes comunitárias em face das cambiantes exigências do capital. A cultura norte-americana glorifica o transitório, as relações impessoais como "liberdade" quando de facto estas condições refletem a anomia e a subordinação burocrática de uma massa de indivíduos ao poder do capital corporativo. A norte-americanização envolve um assalto maciço às tradições de solidariedade em nome da modernidade, ataques às lealdades de classe em nome do individualismo, a degradação da democracia através campanhas maciças dos media que enfocam personalidades. 

A nova tiraria cultura tem raiz no omnipresente e repetitivo discurso do mercado, da cultura homogeneizada do consumo, de um sistema eleitoral degradado. A nova tiraria dos media mantem-se de pé lado a lado com o Estado hierárquico e as instituições econômicas que vão desde os gabinetes dos bancos internacionais às aldeias nos Andes. O segredo do êxito da penetração cultural norte-americana no Terceiro Mundo é sua capacidade para modelar fantasias a fim de escapar à miséria gerado pelo próprio sistema de dominação econômica e militar. Os ingredientes essenciais do novo imperialismo cultural são a fusão do comercialismo-sexualidade-conservadorismo, cada um deles apresentado como expressões idealizadas de necessidades privadas, de auto-realização individual. Para algumas pessoas do Terceiro Mundo imersas em tarefas quotidianas sem perspectivas, lutas pela sobrevivência diária, no meio da sujeira e da degradação, as fantasias dos media norte-americanos, tal como o evangelista, retratam "alguma coisa melhor", uma esperança numa melhor vida futura — ou pelo menos o prazer indireto de observar outros a desfrutá-la. 

IMPACTO DO IMPERIALISMO CULTURAL 

Se quisermos entender a ausência de transformação revolucionária, apesar da maturação de condições revolucionárias, devemos reconsiderar o profundo impacto psicológico do Estado de violência, terror político e a profunda penetração dos valores cultural/ideológicos propagados pelos países imperiais e internalizados pelos povos oprimidos. O Estado de violência dos anos 70 e princípios de 80 criaram danos psíquicos a longo prazo e em larga escala — medo de iniciativas radicais, desconfiança de colectividades, um sentimento de impotência perante autoridades estabelecidas — mesmo quando as mesmas autoridades são odiadas. O terror virou o povo "para dentro de si próprio", em direcção a domínios privados. 

Posteriormente, políticas neoliberais, uma forma de "terrorismo econômico", resultaram no encerramento de fábricas, na abolição da proteção legal do trabalho, no crescimento do trabalho temporário, na multiplicação de empresas individuais mal pagas. Estas políticas mais uma vez fragmentaram a classe trabalhadora e as comunidades urbanas. Neste contexto de fragmentação, desconfiança e privatização, a mensagem cultural do imperialismo encontrou campos férteis para explorar as sensibilidades de pessoas vulneráveis, encorajando e aprofundando a alienação pessoal, objetivos auto-centrados e a competição individual sobre recursos cada vez mais escassos. 

O imperialismo cultural e os valores que ele promove tem desempenhado um papel importante para impedir indivíduos explorados de responderem colectivamente às suas condições em deterioração. Os símbolos, imagens e ideologias que se difundiram no Terceiro Mundo são obstáculos maiores para a conversão da exploração de classe e crescente miserabilismo em consciência de classe, base para a ação colectiva. A grande vitória do imperialismo é não apenas os lucros materiais, mas sua conquista do espaço íntimo da consciência dos oprimidos, diretamente através dos mass media e indiretamente através da captura (ou rendição) dos seus intelectuais e políticos. Se bem que um renascimento da política revolucionária de massa seja possível, ela deve começar com a guerra não só às condições de exploração como também à cultura que sujeita suas vítimas. 

LIMITES DO IMPERIALISMO CULTURAL 

Contrariando as pressões do colonialismo cultural está o princípio da realidade: a experiência pessoal de miséria e exploração imposta pelos bancos multinacionais ocidentais, a repressão policial/militar reforçada pelo fornecimento de armas americanas. As realidades diárias, às quais os media escapistas jamais poderão mudar. Dentro da consciência dos povos do Terceiro Mundo há uma luta constante entre o demônio da escapatória individual (cultivada pelos massa media) e o conhecimento intuitivo de que a ação e responsabilidade colectivas são a única resposta prática. Em tempos de mobilizações sociais crescentes, a virtude da solidariedade ganha prioridade; em tempos de derrota e declínio, aos demônios da rapacidade individual é dado livre trânsito. 

Há limites absolutos na capacidade do imperialismo cultural para distrair e mistificar pessoas para além do qual inicia-se a rejeição popular. A "mesa da fartura" na TV contrasta com a experiência da cozinha vazia, as escapadelas amorosas de personalidades dos media chocam-se contra uma casa cheia de crianças a engatinharem, chorosas e famélicas. Nas confrontações de rua, a Coca Cola torna-se um coquetel Molotov. A promessa de riqueza torna-se uma afronta àqueles a quem é perpetuamente negada. O empobrecimento prolongado e a decadência generalizada corroem o encanto e o apelo das fantasias dos mass media. 

As falsas promessas do imperialismo cultural tornam-se objecto de anedotas amargas, relegadas para outro tempo e outro lugar. 

Os apelos do imperialismo cultural são limitados pelos laços duradouros das colectividades — locais e regionais — as quais têm os seus próprios valores e práticas. Onde os laços de classe, de raça, de gênero e de etnia persistem e as práticas de ação colectiva são fortes, a influência dos mass media é limitada ou rejeitada. 

Na media em que as culturas e tradições preexistentes se mantenham, elas formam um "círculo fechado" que integra práticas sociais e culturais voltadas para dentro de si mesmas, não para fora. Em muitas comunidades há uma rejeição clara do discurso "modernista" de desenvolvimento individualista associado com a supremacia do mercado. As raízes históricas para a solidariedade sustentada e para os movimentos anti-imperiais são encontradas em comunidades étnicas e ocupacionais coesas; cidades mineiras, aldeias de pescadores e florestais, concentrações industriais em centros urbanos. Onde trabalho, comunidade e classe convergem com tradições culturais e práticas colectivas, o imperialismo cultura recua. 

A efetividade do imperialismo cultural não depende simplesmente das suas qualificações técnicas de manipulação, mas sim da capacidade do Estado de brutalizar a atomizar a massa do povo, privá-la das suas esperanças e da fé colectiva em sociedades igualitárias. 

A libertação cultural não significa simplesmente "dar poder" a indivíduos ou classes, mas depende sim do desenvolvimento de uma força sócio-política capaz de confrontar o estado de terror que antecede a conquista cultural. A autonomia cultural depende da força social e a força social é percebida pelas classes dominantes como uma ameaça ao poder econômico e do Estado. Assim como a luta cultural está enraizada em valores de autonomia, comunidade e solidariedade que são necessários para criar a condição de consciência por transformações sociais, é necessária a força política e militar para apoiar as bases culturais das identidades de classe e de nação. 

O mais importante: a esquerda deve recriar uma fé e uma visão de uma nova sociedade construída em torno de valores tanto espirituais como materiais: valores de beleza e não apenas de trabalho. A solidariedade ligada à generosidade e à dignidade. Onde os modos de produção estejam subordinados a esforços para fortalecer e aprofundar antigos vínculos pessoais e de amizade. 

O socialismo deve reconhecer as aspirações de estar sozinho, de estar na intimidade, assim como de ser social e colectivo. Acima de tudo, a nova visão deve inspirar o povo porque isto vibra com o seu desejo não apenas de ser livre da dominação como de ser livre para criar uma vida pessoal significativa informada por relações afetivas não-instrumentais que tanto transcendam o trabalho quotidiano como inspirem as pessoas a continuarem a lutar. O imperialismo cultural tem êxito quanto à novidade, às relações transitórias e à manipulação pessoal, mas nunca sobre uma visão de laços autênticos, íntimos, baseados sobre a honestidade pessoal, a igualdade de gênero e a solidariedade social. 

As imagens pessoais mascaram os assassínios em massa do Estado, assim como a retórica tecnocrática racionaliza as armas de destruição maciça ("bombas inteligentes"). O imperialismo cultural na era da 'democracia' deve falsificar a realidade no país imperial a fim de justificar a agressão — através da conversão das vítimas em agressores e dos agressores em vítimas. 

Sobre o Caráter Ideológico dos Mexericos Enver Hoxha

Enver Hoxha

12 de Setembro de 1969



De todo o nosso trabalho político-ideológico quotidiano, dos artigos que lemos constantemente na imprensa, tal como dos relatórios que nos são apresentados, destaca-se que o partido tem de enfrentar “mexericos”. Queria agora dizer algumas palavras sobre a natureza destas manifestações, das suas fontes, do que elas representam e qual é o seu objetivo, pensando que isso possa servir para as combater.

Os mexericos são um fenômeno típico da pequena-burguesia. Têm um caráter pequeno-burguês e são manifestações da ideologia burguesa. Os mexericos mal intencionados são produto do subjetivismo e não têm nada de comum com uma crítica sã, realista e construtiva. Bem pelo contrario, têm um caráter denegridor, freqüentemente calunioso, tanto com intenção como sem ela. Na maior parte das vezes, são mexericos sem fundamento e, quando, raramente, se trata de um assunto que tenha qualquer fato concreto por base, transforma-se em ato denegridor por efeito da própria forma sob a qual se desenvolve e do juízo subjetivo daquele que interpreta o assunto. Mesmo neste caso, de interpretação em interpretação feita por indivíduos que se entregam à prática nociva dos mexericos, estes acabam por tornar-se calúnia. Deve-se ver aí um método de crítica dos mais odiosos, próprio dos pequeno-burgueses. Não há nele qualquer atitude sã, de princípio, nem construtiva porque ela deforma os fatos, inventa, intencionalmente ou não, circunstâncias não verificadas, porque procede de boca a ouvido pelas costas e em prejuízo do elemento que toma como alvo.

Os mexericos não têm nunca como objetivo a correção do elemento visado; fazem, pelo contrário, um grande dano tanto ao indivíduo como ao coletivo. Os que se entregam a esta prática apresentam-se como moralistas, pois disfarçam sempre os seus propósitos maldizentes com uma “concepção moral elevada”, quando se trata, na realidade, de uma concepção amoral, quer pelo espírito subjetivista que inspira sua formação, quer pelos fundamentos em que repousa, quer pelas formas que toma e pelos objetivos que persegue. Os que recorrem, como a um método de conteúdo pretensamente político, a esses mexericos (que, de fato, podem florescer em domínios diversos), não podem estar eles próprios imbuídos de uma concepção política sã, pois as pessoas que têm os pontos de vista subjetivistas que a prática pequeno-burguesa dos mexericos pressupõe, nunca estão em condições de proceder a uma verdadeira análise da situação política mediante o estudo dos fatos reais de maneira objetiva. O método de organização do trabalho baseado em tagarelices não pode ser um método correto de análise política. Os que o empregam são, podemos dizê-lo sem receio de nos enganarmos, ou oportunistas ou interesseiros ou sectários ou conservadores.

Além dos males que acabo de invocar, os mexericos suscitam querelas, disputas, rancores que podem ir até aos homicídios. Provocam uma perturbação na sociedade, na sua harmoniosa unidade ideológico-política, mas são também uma forma da luta de classe por parte da burguesia derrubada do poder, para criar dificuldades à ditadura do proletariado, para atormentar moralmente e nas coisas mais íntimas as pessoas sãs da nossa sociedade. Deve-se compreender bem que tal método, de conteúdo e de caráter reacionário, escolherá inevitavelmente como primeiro alvo, a fim de os desacreditar e de os desqualificar, precisamente os que combatem impiedosamente os “mexericos”.

Combater implacavelmente os “mexericos” sob as formas burguesas e pequeno-burguesas com que se apresentam, não significa dissimular os erros que se manifestaram em qualquer domínio político, ideológico, moral ou organizativo. Pelo contrário, a crítica destes erros deve ser feita, mas deve repousar sobre sólidas bases de princípio, apoiar-se bem sobre fatos, ser aberta, formulada cara a cara ou perante o coletivo, no momento em que é necessária e não ser baseada em simples suposições. A crítica deve, em todas as circunstâncias, caracterizar-se por um objetivo moral, político e ideológico, ter uma função educativa para o indivíduo ou para o coletivo criticados, nunca ter como objetivo esmagar moralmente o elemento em causa, mas, pelo contrário, elevar o seu moral para lhe permitir corrigir os seus erros. Enfim, a crítica dirigida a pessoas que cometem erros na sua vida privada ou no local onde trabalham não se deve transformar numa preocupação dominante que dissimule, obscureça e entrave a justa solução dos principais problemas que preocupam o Partido e o Estado. Sublinho-o, porque com muita freqüência nas organizações de base do Partido vêem-se abrir debates que consistem em críticas individuais recíprocas sob formas que não só fazem desleixar os problemas principais e perturbam a vida da organização como, por vezes, rompem também a sua unidade.

Por vezes, consolamo-nos dizendo que estas críticas “não têm um caráter político”. Esta apreciação é errada. Elas têm um caráter político e ideológico, precisamente porque suscitaram a discórdia e a divisão no seio da organização. Não se trata aqui de não criticar os que cometem erros; eles devem ser criticados sem falta sob as formas e pelas razões que invoquei mais atrás, mas devemos precaver-nos cuidadosamente contra críticas baseadas em intrigas, de essência subjetivista, e os seus efeitos desmoralizantes e antieducativos.

Assim, o Partido deve compreender convenientemente o aspecto perigoso, nos planos político, ideológico e organizativo, dos “mexericos”, a fim de que eles possam ser combatidos com rigor, como é preciso que o sejam. Se o perigo que eles representam não for bem compreendido pelos comunistas, se estes, na vida, caem na prática deste método pequeno-burguês, “os mexericos” esgueirar-se-ão também para dentro do Partido, que então não estará em condições de combater esta prática perniciosa entre as massas.

Por isso, agucemos a nossa vigilância e combatamos este hábito nocivo, por onde quer que ele se manifeste, em primeiro lugar em nós próprios, no Partido e entre as massas.

Em geral, são os ociosos que se entregam às maledicências, às tagarelices, mas não são os únicos a fazê-lo. Em primeiro lugar, encontraremos este hábito entre as pessoas de um nível de formação política e ideológica pouco elevada, entre os que se comprazem numa vida cultural oca, que não vivem como deve ser com as idéias novas que o Partido e as massas desenvolvem e que não combatem para as pôr em prática. Os portadores destas tagarelices são elementos apodrecidos com preconceitos atrasados, ou incapazes de romper com o modo e as formas arcaicas de vida, com os costumes do passado. Mas são iguais também os que se apresentam como elementos “modernizados”, mas nos quais esta espécie de modernização não passa de uma degenerescência do caráter e de um refinamento ainda mais perigoso da prática dos “mexericos”.

Outrora, o tempo passado no café ou as visitas de umas pessoas à casa das outras eram ocasião para longas conversas. “Mata-se o tempo”, dizia-se, mas isso fazia-se falando de uns e de outros, passando a sua vida pelo crivo. Tal prática, embora consideravelmente emendada, prossegue ainda hoje. Há camaradas que se lamentam justamente da abertura de um número demasiado de cafés. Não foi dada qualquer ordem para abrir cafés a seguir uns aos outros; portanto, os únicos responsáveis por este estado de coisas são os próprios camaradas dos distritos, que se lamentam disso e que são os próprios a autorizá-lo. Se levanto este problema, não é para que se fechem todos os cafés, pois isso não seria uma medida judiciosa. Contudo, não se deve considerar este problema unicamente sob o seu aspecto comercial; deve-se ter igualmente em conta o descanso necessário dos trabalhadores. Que o café se torne efetivamente um lugar de ócios cultivados, isso depende, antes de mais nada, dos próprios clientes que o freqüentam, da sua mentalidade, do nível da sua formação ideológica e política, da intenção com que vão para lá. Se uma pessoa freqüenta o café até ao ponto de desleixar o seu lar e a sua família, se o freqüenta para beber e se embriagar, para aí dizer mal de todos os que entram e saem ou para fazer escândalos, então o café torna-se um lugar de mexericos. É evidente que a responsabilidade não recai somente sobre o local, mas também sobre os seus freqüentadores. Assim, se é verdade que não devemos abrir cafés demais, é, antes de mais nada, necessário trabalhar para a educação das pessoas, porque se esta primeira condição não for cumprida, estas pessoas não educadas dedicar-se-ão então aos seus desmandos, invadirão os nossos estabelecimentos culturais que não se chamam cafés, mas que facilmente podem vir a sê-lo.

Portanto, temos muito a fazer no domínio da direção e da educação da classe operária e dos trabalhadores. Como se enganam os camaradas que me escrevem nas suas cartas frases como estas: “Sepultamos para todo o sempre e profundamente as leis do cânone do Lek”(1), “a influência da religião foi suprimida” e outras afirmações deste gênero, que denotam uma falta de maturidade. Bem entendido, estes camaradas não têm dúvidas de que é difícil adormecer o Partido ou a mim próprio com tais afirmações retumbantes, mas não se trata aqui de uma tentativa, ainda que involuntária, de mentira, de mistificação ou de uma falta de aprofundamento da situação política, ideológica e social das regiões onde estes camaradas trabalham e vivem. Os grandes resultados obtidos não representam mais do que uma parte dos que devemos atingir, e, para o fazer, devemos saltar ainda muitos obstáculos, que não podemos vencer de outro modo senão lutando e ao preço de esforços, e não com palavras ocas e gabarolices. A elevação político-ideológica, o trabalho bem organizado e a simplicidade comunista do caráter permitem vencer as dificuldades e obter os êxitos desejados.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cuba: O socialismo e as concessões.


Uma pequena contribuição ao entendimento sobre o recente acontecimento da dita ''privatização'' ocorrida em Cuba do Aeroporto José Marti.

Vamos ao primeiro fato:


1)Não há propriedade privada dessa envergadura em Cuba. O aeroporto segue a mesma regra de outras grandes empresas que recebem capital privado: 51% dos negócios pertencem a Cuba (que ainda mantém todo o controle contábil, inclusive determinando de quanto será o lucro do investidor), além do que o contrato é temporário. Vale destacar que não foi apenas o Aeroporto José Martí que entrou na conversa; para que os franceses fechassem o negócio, ficou acordado que deverão aparelhar e modernizar outros aeroportos menores.

Segundo fato:

2)O fato de dizerem que é privatização não torna uma mentira em verdade. São duas coisas diferentes. Privatização é venda, perda do controle e da propriedade. Em se tratando de um objeto estratégico, como o maior aeroporto do país, perder a sua propriedade significaria um prejuízo enorme para um Estado que edifica o socialismo.
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Bem, diante disso, são necessárias mais duas explicações para que a questão da concessão fique clara, diferenciar entre uma concessão no sistema capitalista por um governo burgues, e uma concessão no sistema planificado por um governo socialista.

1)Concessão de bens públicos sob um sistema capitalista e de um governo burguês é feito sem consulta popular, sem planejamento efetivo sobre os objetivos das concessões e o Estado faz apenas para favorecer a burguesia sem qualquer contrapartida real ao povo. Além de o governo ser ligado diretamente à elite econômica do pais, portanto, serve aos seus interesses, Porque é um Estado Burguês.

2)Concessão de bens públicos de forma parcial para o setor privado sob um sistema socialista e de um governo controlado pelos trabalhadores é feito com consulta popular, com planejamento central, tem objetivos de curto, médio e longo prazo.

E o que comprova que é realmente isso que aconteceu no caso do aeroporto José Marti ? 

Com a palavra o próprio governo cubano''Todas as instalações existentes e aquelas construídas no futuro, em ambos os aeródromos serão de  propriedade cubana. Além disso, o Estado mantém o controle das atividades de alfândega, imigração e segurança aeroportuária''.

Rodríguez assinalou que o transporte e sua infraestrutura constituem elementos estratégicos e priorizados na economía e  sociedade cubana.
Em tal sentido, a Corporação da Aviação Cubana S.A. continuará promovendo outros aeroportos da maior aliança do Grupo de ilhas  deste tipo e outras ações, como as desenvolvidas durante os últimos anos para a ampliação e modernização de suas instalações, concluiu[1].
Deixo aqui abaixo, links para dois bons textos sobre duas questões que se inter-relacionam: A primeira sobre a ''restauração capitalista em cuba ?''. E a segunda sobre essa noticia especifica na midia reacionária em relação a ''privatização'' do aeroporto.

1:Cuba concede ampliación y gestión de Aeropuerto José Martí a reconocidas firmas francesas

2: Texto sobre a "Restauração capitalista em Cuba?"

3:Sobre Cuba, a “privatização do aeroporto” e a transição socialista










terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Capitalismo e a Imigração dos Operários Lenin

O capitalismo criou uma forma particular de migração dos povos. Os países em rápido desenvolvimento no aspecto industrial, introduzindo mais máquinas, desalojando os países atrasados do mercado mundial, elevam os salários acima da média e atraem operários assalariados dos países atrasados.

Centenas de milhares de operários transferem-se assim para centenas e milhares de verstas de distância. O capitalismo avançado atrai-os pela força para o seu turbilhão, arranca-os aos seus lugarejos, faz deles participantes do movimento histórico mundial, coloca-os frente a frente com a poderosa e unida classe internacional dos industriais.

Não há dúvida de que só a extrema miséria obriga as pessoas a abandonar a sua pátria, de que os capitalistas exploram da maneira mais desavergonhada os operários migrantes. Mas só os reaccionários podem fechar os olhos ao significado progressista dessa migração moderna dos povos. Não há nem pode haver libertação do jugo do capital sem o desenvolvimento do capitalismo, sem a luta de classes sobre o seu terreno. E é precisamente a essa luta que o capitalismo atrai as massas trabalhadoras de todo o mundo, quebrando o embrutecimento bafiento da vida local, destruindo as barreiras e preconceitos nacionais, unindo os operários de todos os países nas grandíssimas fábricas e minas da América, da Alemanha, etc(...)

O aumento da emigração é enorme e intensifica-se cada vez mais. Em cinco anos, de 1905 a 1909, emigraram em média para a América (trata-se apenas dos Estados Unidos) mais de um milhão de pessoas por ano.

É interessante notar a alteração da composição dos imigrantes (isto é, dos que se instalam na América). Até 1880 predominou a chamada velha imigração, vinda de velhos países civilizados, da Inglaterra, da Alemanha, em parte da Suécia. Mesmo até 1890 a Inglaterra e a Alemanha em conjunto contribuíam com mais de metade de todos os imigrantes.

A partir de 1880 começa um aumento incrivelmente rápido da chamada nova imigração, da Europa oriental e do Sul, da Áustria, da Itália e da Rússia. Estes três países forneceram aos Estados Unidos da América do Norte os seguinte imigrantes(..)

Deste modo, os países mais atrasados do velho mundo, os que mais conservaram os vestígios da servidão em todo o sistema de vida, são por assim dizer submetidos à escola forçada da civilização. O capitalismo americano arranca milhões de operários da Europa oriental atrasada (incluindo da Rússia, que forneceu 594 000 imigrantes em 1891-1900 e 1 410 000 em 1900-1909) às suas condições semimedievais e coloca-os nas fileiras do exército avançado e internacional do proletariado.

Gúrvitch, autor de um livro inglês extraordinariamente instrutivo intitulado Imigração e Trabalho, publicado no ano passado, faz uma observação interessante. Depois da revolução de 1905, o número de imigrantes para a América aumentou particularmente (em 1905 1 milhão, em 1906 1,2 milhões, em 1907 1,4 milhões, em 1908-1909 1,9 milhões por ano). Os operários que tinham conhecido toda a espécie de greves na Rússia levaram também para a América o espírito das greves de massas mais corajosas e mais ofensivas.

A Rússia atrasa-se cada vez mais, ao ceder ao estrangeiro uma parte dos seus melhores operários; a América avança cada vez mais depressa, recebendo de todo o mundo a população mais enérgica e mais apta para o trabalho(..)

Quanto mais atrasado é um país tanto maior é o número de operários não qualificados, «serventes», trabalhadores agrícolas, que fornece. As nações avançadas apropriam-se, por assim dizer, dos melhores tipos de trabalhos, deixando aos países semibárbaros os piores tipos de trabalhos. A Europa em geral (os «restantes países») dá à Alemanha 157 000 operários, dos quais mais de 8/10 (135 em 157) são operários industriais. A Áustria atrasada dá apenas 6/10 (162 em 263) de operários industriais. A Rússia, a mais atrasada, dá apenas 1/10 de operários industriais (34 em 308).

Deste modo, em tudo e em toda a parte fazem a Rússia pagar pelo seu atraso. Mas os operários da Rússia, em comparação com a restante população, são os que mais procuram escapar a esse atraso e a essa barbárie, os que mais reagem a esses traços «encantadores» da sua pátria, os que mais estreitamente se unem aos operários de todos os países numa única força libertadora mundial.

A burguesia lança os operários de uma nação contra os da outra, procurando dividi-los. Os operários conscientes, compreendendo a inevitabilidade e o carácter progressista da destruição pelo capitalismo de todas as barreiras nacionais, procuram ajudar à formação e à organização dos seus camaradas dos países atrasados.













sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Panteras Negras foram vanguarda dos anos 60

O grupo que desafiou o racismo e o Estado no país mais poderoso do mundo

Washington State Archives


“Eles são a maior ameaça para a segurança interna do país”, sentenciou John Edgar Hoover, o lendário chefe do FBI, durante reunião na qual declarou guerra aberta ao partido de jovens afro-americanos que, no final dos anos 1960, ousava promover motins e enfrentar a polícia.
 
Os Panteras Negras brotavam como cogumelos nas principais cidades norte-americanas. Rapidamente viravam o símbolo e a direção de quem não aceitava mais oferecer a outra face perante à agressividade das forças racistas.
 
As leis segregacionistas já estavam abolidas desde 1964, mas a brutalidade repressiva contra os bairros negros e a situação de pobreza não se alteravam.
 
Os grandes centros urbanos do norte e da costa oeste, para onde migravam os que fugiam do apartheid sulista, tinham se transformado em panelas de pressão. Levantes frequentes agitavam as cidades e a imaginação.

Washington State Archives
Panteras Negras na assembleia estadual em Sacramento, Califórnia, protestam contra projeto de lei para proibir porte de armas
 
Quando moradores de Watts, distrito na periferia de Los Angeles, se sublevaram contra a prisão arbitrária de um vizinho, em agosto de 1965, abria-se um novo ciclo histórico. Entre os dias 11 e 15, o chão ficou tingido pelo sangue de 34 mortes e mais de mil feridos. Quase 3,5 mil presos e mais de 40 milhões de dólares em danos materiais foram contabilizados.
 
Nos três anos seguintes, a cena se repetiu em muitas outras localidades. Os Estados Unidos pareciam caminhar rumo a uma insurreição.
 
Os encarregados em manter a lei e a ordem perdiam o sono. Estava aparentemente em perigo o sistema que juraram defender.
 
Ao lado das multidões que marchavam contra a Guerra do Vietnã, a mobilização dos guetos negros sacudia um mundo marcado por regras e hábitos construídos no encontro entre imperialismo e escravidão.
 
Era esse o clima, em outubro de 1966, no dia 15, quando dois estudantes do Merritt College, em Oakland, cidade vizinha a São Francisco, na ensolarada Califórnia, fundaram o Partido Pantera Negra para a Autodefesa.
 
Huey P. Newton e Bobby Seale recrutaram mais quatro colaboradores e formaram o núcleo inicial da organização. Também decidiram instituir um uniforme: camisas azuis, calças e boinas pretas, casacos de couro.
No funeral de Bobby Huttons, Marlon Brando fala sobre os Panteras Negras
 
Tinham mais simpatia pelas ideias de Malcolm X, assassinado em maio do ano anterior, do que pelo pensamento de Martin Luther King, mortalmente baleado dali a dois anos.
 
Sentiam-se atraídos por objetivos nacionalistas e de autodeterminação, a compreensão de que o povo negro estava sob jugo colonial desde que escravos africanos foram capturados e transportados contra a vontade.
 
Flertavam com possibilidades separatistas, entortando o nariz para a narrativa integracionista que predominava nos grupos dominantes da campanha contra a segregação.
 
Acima de tudo, consideravam inaceitável a estratégia de resistência passiva, não violenta, apregoada por Luther King, com quem costuravam acordos pontuais, mas tendendo a enxergá-lo como um anexo do sistema que sonhavam demolir.
 
Partiam do pressuposto que a falta de reação, cedo ou tarde, afetaria o ânimo e a capacidade de mobilização. A resistência ativa, por outro lado, poderia elevar a autoestima e intimidar os inimigos de sua causa.
Nas Olimpíadas de 1968, no México, Tommie Smith e John Carlos erguem o punho durante hino nacional dos EUA (Foto: WikiCommons)
Nas Olimpíadas de 1968, no México, Tommie Smith e John Carlos erguem o punho durante hino nacional dos EUA (Foto: WikiCommons)




 
Viam-se, em certa medida, como herdeiros de Malcolm X, ainda que não partilhassem seus pendores islâmicos. O que definitivamente os entusiasmava era o propósito de ser a ponta de lança das comunidades negras. Seus organizadores e protetores armados frente aos atropelos do Estado e de agremiações racistas como a Ku Klux Klan.
 
Contavam, a seu favor, com uma lei californiana que permitia a todos os cidadãos carregarem suas próprias armas. De rifles no ombro e revólveres em punho, funcionavam como tropa de choque contra a ação policial, protegendo manifestações e protestos.
 
Crescimento após ação audaciosa
 
A fama nacional veio com uma ação espetacular, em maio de 1967.
 
A Assembleia Estadual da Califórnia, sediada em Sacramento, tinha agendado a discussão de projeto que proibia o porte de armas. Sob comando de Bobby Seale, trinta militantes ocuparam, armados, as instalações do organismo legislativo, em protesto contra medida que enfraqueceria os Panteras Negras diante da polícia.
 
Imagens de tamanha audácia percorreram o país.
 
Seu prestígio cresceu aceleradamente, atraindo jovens militantes por toda a parte, que abriam escritórios do partido, aderiam a seu programa e se paramentavam para a guerra. 
 
As ambições eram vigorosas: emprego, educação, habitação, fim da brutalidade policial, julgamento de negros apenas por juízes e júris negros, revogação do serviço militar obrigatório, liberdade para os afro-americanos decidirem se queriam continuar incorporados aos Estados Unidos ou fundar sua própria nação.
 
Também manifestavam seu repúdio à intervenção norte-americana no Vietnã. Não queriam apenas a paz e a retirada das tropas. Batalhavam pela vitória dos comunistas de Ho Chi Minh, o líder da independência do país asiático, contra os exércitos chefiados pela Casa Branca. 
 
Foi nessa batida que logo se transformaram na corrente mais relevante do chamado Poder Negro.
 
Sob esse guarda-chuva se abrigava, entre os anos 60 e 70, uma constelação de movimentos e grupos dispostos à insurgência contra um modelo que, aos seus olhos, estava marcado pelo cruzamento entre supremacia branca, domínio dos ricos e neocolonialismo.
 
“Nascemos como uma organização comunitária, mas logo nos reivindicamos como partido revolucionário”, relembra Kathleen Neal Cleaver, primeira mulher a integrar o comitê central dos Panteras Negras. “Sob a influência da Revolução Cubana e da guerra de libertação dos vietnamitas, além do impacto das ideias de Mao Tse Tung, assumimos identidade marxista, mas nas condições específicas da luta anticolonial dos negros norte-americanos.”
 
Reprodução/Emory Douglas
Aos 71 anos, Kathleen é atualmente professora na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do planeta. Formada em Direito, dedica-se ao estudo de questões afro-americanas.
 
Casada por vinte anos com um dos chefes históricos dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, o terceiro homem da troika que também incluía Newton e Seale, ela foi secretária de Comunicação do partido entre 1967 e 1969, antes de se exilar na Argélia, com o marido, então condenado por tentativa de homicídio, durante tiroteio contra policiais de Oakland.
 
“Os Estados Unidos são diferentes de outros países capitalistas”, afirma, resumindo análise que embasava sua organização. “A estrutura econômica e social tem um componente de dominação colonial dentro do próprio território, para o qual outros povos foram trazidos à força. Não se trata apenas de preconceito racial, mas de supremacia como forma de Estado e sociedade.”
 
Essa lógica levou os Panteras Negras a aceitarem filiação apenas de afro-americanos. Apostavam que interesses comuns seriam defendidos por coalizões entre distintas agremiações, cada qual com sua própria identidade nacional ou étnica.
 
Estado versus Panteras Negras
 
Parte da imprensa aproveitou este critério para enquadrar o agrupamento como racista, defensor de alguma espécie de supremacia negra. A outra perna da campanha de desconstrução era pintá-lo como adepto da violência e do terror.
 
“Nós estávamos em guerra e tínhamos o direito de nos defender”, declara Elaine Brown, a última presidente do partido antes de sua dissolução. “Mas recorríamos à violência apenas quando atacados. Nosso trabalho principal era educacional e de organização social.”
Kathleen Cleaver (esq.) e Elaine Brown (dir.), em fotos dos anos 70 e atualmente
 
Nascida em um gueto de Filadélfia, atualmente com 73 anos, a ativista também se fez cantora e escritora. Quando os Panteras Negras estavam já em seu ocaso, divididos e sob severa repressão, Elaine foi nomeada por Newton, foragido em Cuba, a nova comandante do movimento, cargo que ocuparia entre 1974 e 1977.
 
“Ninguém tinha a receita para enfrentar o padrão repressivo que foi sendo adotado pelo governo”, relembra Elaine. “Tentamos aplicar uma das máximas de Mao, de que a guerrilha deve se mover entre as pessoas como um peixe nadando no mar. Mas o cerco se fechava.”
 
Além da autodefesa, a legenda fez-se conhecida por implantar programas de assistência nos bairros mais pobres, dos quais o mais famoso talvez tenha sido o café da manhã para crianças de famílias paupérrimas. Provou-se estratégia inteligente para ampliar influência e atrair novos militantes, além de permitir a construção de expressiva rede financeira entre artistas, intelectuais e até empresários.
 
Os Panteras Negras também conseguiram manter um semanário de circulação nacional e construir escolas de formação política, nas quais milhares de homens e mulheres foram educados.
 
Participaram igualmente de processos eleitorais, na fórmula do Partido Paz e Liberdade, uma casa de esquerda até hoje em atividade, pela qual Eldridge Cleaver disputou as eleições presidenciais de 1968. Conquistou menos de 50 mil sufrágios: poucos eram os afro-americanos inscritos para votar.
Vídeo em tributo aos Panteras Negras, grupo fundado em Oakland em 1966
 
Não alcançaram, em seu auge, mais que 10 mil militantes, segundo cálculos de vários dirigentes. O potencial de crescimento social, político e até militar, contudo, despertou a atenção e a ira dos organismos de segurança.
 
Hoover ordenou ao FBI que praticasse toda sorte de operação para desmoralizar, dividir e destruir os Panteras Negras. A caixa de ferramentas contra a organização rebelde era completa: infiltrações, denúncias forjadas, assassinatos, prisões em massa, provas plantadas.
 
A polícia de Los Angeles, seguida pela de outras cidades, deu contribuição cinematográfica à caçada anunciada, com a criação da SWAT, tropa especial forjada para o combate ao partido de Newton, Seale e Cleaver. Seu batismo de fogo foi uma batalha para tomar de assalto a sede da agremiação na cidade dos anjos.
 
Fim do grupo nos anos 80
 
O Senado norte-americano, em 1975, reconheceria oficialmente as ilegalidades cometidas. Nenhuma reparação, no entanto, foi determinada. Os que haviam sobrevivido, muitos apodrecendo atrás das grades, não foram contemplados por qualquer lei de anistia ou indulto. Os policiais responsáveis jamais seriam punidos.
 
A esta altura, além do mais, o fardo de prisões, mortes e divisões já era insuportável. O partido praticamente deixara de existir, apesar dos empenhos de sobrevida até 1982.
 
Muitos de seus militantes iriam se incorporar a outros agrupamentos, especialmente ao Exército Negro de Libertação, atuante até meados dos anos 80. O poder de mobilização e representação dos Panteras Negras, no entanto, tinha sido esmagado pelo Estado mais poderoso do mundo.
 
O chefe da polícia federal norte-americana cumprira a ameaça contida em um documento oficial do FBI: “Jovens negros e ativistas moderados precisam entender que, caso resolvam se transformar em revolucionários, serão revolucionários mortos.”