quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Nota:Fundamentos do desenvolvimento econômico

O desenvolvimento econômico não é formado pura e simplesmente no número de novas empresas abertas e de investimento estrangeiro em setores da economia.
A estrutura do verdadeiro desenvolvimento econômico é caracterizada por alguns fatores (que sem eles qualquer tipo de crescimento torna-se inútil).
Principalmente para os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos:
-Aumento de ganho real dos salários
-Aumento de arrecadação do Estado (principalmente por parte de impostos sobre capital e herança).
-Aumento de consumo dos bens duráveis e não duráveis.
-Diminuição da empregabilidade informal (traço característico dos países atrasados).
-O encurtamento da diferença entre as faixas de renda (ou seja, diminuição da desigualdade de ganhos entre ricos e pobres).
-Eliminação de impostos indiretos.
-Investimentos do Estado em infraestrutura, educação e saúde: A tríade obrigatória de todos os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento para aumentarem a produtividade.
Caso contrário o crescimento do PIB acontece, o país se ''desenvolve'', mas apenas para uma pequena parcela da população.
O resultado que podemos observar na maioria desses países:
-Não constroem uma indústria nacional, restringem o mercado interno, favorecem importações e consequentemente continuam extremamente dependentes de dois ou três países que dominam completamente sua economia e as decisões que ali são tomadas.

10 posicionamentos ''impopulares''

- A legalização da maconha não vai diminuir a violência, e a maioria da pequena burguesia (ou periféricos iludidos) que utilizam desse argumento, o fazem apenas para justificar seu vicio e ser bem visto entre os desconstruídos do DCE.
- O aborto como método contraceptivo é um erro, assim como apresenta-lo como tábua de salvação para as mulheres pobres e negras. Os problemas das famílias pobres não se resumem ai, longe disso, principalmente das mulheres jovens (ao qual é direcionada a campanha, principalmente).
-A representatividade, protagonismo e lugar de fala não servem para nada. Os movimentos sociais norte-americanos já fizeram isso, e o resultado podemos observar atualmente, 50 milhões na extrema pobreza nos E.U.A, a maioria de negros, assim como são a maioria de assassinados pela policia e nas prisões.
- A questão de classes é a principal e a base de qualquer organização séria e revolucionária.
- A horizontalidade só serve a confusão e infantilidade politica, o amadurecimento mostra a necessidade de lideranças e de vanguardas organizadas.
- O porte de armas é fundamental para a classe operária e deveria ser uma reivindicação entre as organizações de esquerda de um modo geral e, claro, as revolucionárias.
- De alguma forma todo partido e organização ainda que se diga contra o revisionismo, fez algum tipo de ''revisão'' sobre a teoria marxista para adapta-la as condições concretas do seu tempo e região.
- A violência é uma ação necessária em determinados momentos da vida e consequentemente da história, mas a fetichização ou algo que o valha interfere diretamente nas analises e intervenções sobre conflitos e posicionamentos a serem tomados no âmbito politico. Tratar a violência como se fosse uma brincadeira ou um comportamento normal e corriqueiro é doentio.
- As reformas podem ser propulsoras de uma revolução ou a estagnação de um projeto econômico, isso vai depender da organização das massas e da luta de classes.
- Os liberais tupiniquins são uma piada, as organizações representantes dessa ideologia são financiadas por grandes multinacionais e bilionários que controlam verdadeiros monopólios em suas áreas de atuação, diante disso, como podem ter a pachorra de defender ''livre mercado'‘? Rs.

Os Estados Unidos não são uma fita métrica para Cuba

Os Estados Unidos não são uma fita métrica para Cuba
1) O tamanho dos países é completamente desproporcional.
2) O número de habitantes também é incomparável
3) Os Estados Unidos é o centro do sistema capitalista mundial, e justamente por isso impôs um bloqueio econômico em Cuba que dura mais de 50 anos.
4) Os Estados Unidos conseguiu essa supremacia por meio de invasões, exploração (ao extremo), guerras, ou seja, por cima da derrota de outros.
5) Cuba revolucionária ainda vivendo todas as dificuldades de um país latino-americano, pobre em recursos naturais e não industrializado consegue ter os melhores índices de qualidade de vida, longevidade (melhor do que os norte-americanos, inclusive rs.), educação e saúde da América Latina.
6) As comparações (corretas) devem ser feitas com países equivalentes da região: Jamaica, Haiti, Costa Rica, Republica Dominicana, Guatemala, Nicarágua etc.
7) E mesmo com todas essas distorções e diferenças entre esses dois países, vemos que uma família trabalhadora tem mais qualidade de vida, tranquilidade e estabilidade social em Cuba do que nos Estados Unidos

O pipoqueiro da esquina detém os meios de produção?

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''O pipoqueiro da esquina detém os meios de produção?''

Ele não detém o credito, nem a fabrica (dos carrinhos) e muito menos a plantação de milho. Geralmente faz uma jornada de no mínimo 8hrs, seis dias por semana e se não trabalhar, não come, logo pode ser encaixado no máximo como pequeno burguês (na mesma categoria de um pequeno comerciante). Não poderia ser colocado como um trabalhador (no sentido clássico) por não vender sua força de trabalho ao capitalista, mas também não tem meios de sobreviver sem trabalhar. Portanto, não, ele não detém os meios de produção.


O que é um pequeno burguês?

Pequenos comerciantes, profissionais liberais. Pessoas que não vendem sua força de trabalho ao capitalista, não detém os meios de produção (ou seja, necessitam do fornecimento de crédito dos capitalistas, da produção dos capitalistas etc.) e trabalham para viver.

Inclusive, dependendo do momento econômico do país, Marx aponta que ''Os pequenos estados médios [Mittelstände] até aqui, os pequenos industriais, comerciantes e rentiers (25*), os artesãos e camponeses, todas estas classes caem no proletariado, em parte porque o seu pequeno capital não chega para o empreendimento da grande indústria e sucumbe à concorrência dos capitalistas maiores, em parte porque a sua habilidade é desvalorizada por novos modos de produção. Assim, o proletariado recruta-se de todas as classes da população''.

A independência e o domínio neocolonial.

A independência formal de um país não o torna independente na pratica perante os países colonizadores.
Geralmente o que aconteceu historicamente foi à independência formal, ou seja, no papel. Porém todos os meios de dominação continuaram intactos, por exemplo:
-Dominação sobre o comércio interno e externo
-Dominação sobre a indústria nacional
-Dominação sobre a agricultura
-Dominação sobre o sistema financeiro
No máximo a mudança ocorreu entre os próprios dominadores e suas respectivas partes do bolo, mas o antes colonizado e agora independente permaneceu na mesma posição de subalterno, apesar da formalidade de sua alforria.
Por isso a revolução é fundamental para romper com essas amarras, claro, para o processo ser vitorioso ele deve retirar os poderes da burguesia (os meios de produção) e organizar a população na defesa da pátria e seus interesses soberanos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Algumas características do fascismo

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O discurso do fascismo contra o capitalismo e a democracia liberal nasce no exato momento do início do seu fracasso (as consequências do fim da primeira guerra e a quebra de 29 foram fundamentais para isso) e com o avanço dos comunistas em diversos países do mundo. Não é a toa que o ''bolchevismo''e sua revolução é temida por todas as forças politicas no século xx.

Por conta disso é necessário um antagonista que esteja preparado para confrontar o dito ''perigo vermelho'' representado não só pelos partidos comunistas, mas pelas organizações operárias e camponesas de um modo geral. Dai nasce primeiro o discurso:

1° Essencialmente antiliberal, ou seja, rejeita o modo de ação de parte dos capitalistas, principalmente dos especuladores e alguns movimentos os latifundiários também. Isso não significa que de forma homogênea tenham defendido a expropriação de toda a burguesia, socialização dos meios de produção, organização operária e camponesa.

Geralmente as propostas de contraposição ao capitalismo era o ‘’Estado corporativo’’, ‘’sindical’’ etc. O que em maior ou menor medida defende a conciliação capital e trabalho (mesmo sendo de maneira menos ‘’ortodoxa’’ do que é feito atualmente pelas organizações continuadoras desse legado).

2°Essencialmente anticomunista; combatendo ideologicamente (materialismo, ateísmo) e fisicamente os marxistas, seus partidos e organizações operarias. Numa tentativa de intimida-los para ter um maior controle ‘’operacional’’ das ruas e respectivamente dos movimentos políticos.

Porque os social-democratas e socialistas (do tipo reformista) por sua condição eleitoral e institucional foram inicialmente os primeiros alvos, acovardados, o avanço ocorreu posteriormente para as organizações revolucionárias. O resultado? Muitos confrontos, mortes e disputa pelas ruas.


As organizações representantes da 3° via crescem na medida em que o sistema democrático e capitalista entre em crise e se desintegra. Existem diversas composições e discursos, mas costumam manter uma base de alguns princípios históricos, como apontados acima.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Trump e suas propostas econômicas

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Trump disse, em discurso, que sua administração diminuirá de 35% para 15% os impostos cobrados das empresas norte-americanas para que;

Não saiam dos Estados Unidos


As empresas que estão na China e México retornem ao seu país de origem (E.U.A).

Se existe um consenso entre democratas e republicanos e seus respectivos lobos solitários é a sistemática diminuição dos impostos para a elite estadunidense. Em contrapartida, claro, as isenções aos capitalistas são repassadas aos trabalhadores e classe média que consequentemente pagaram mais tributos.

Num dos discursos durante a campanha, Trump, prometeu um gigantesco pacote de investimento (1 trilhão de dólares em infraestrutura). Bom, para ser viável é necessário o Estado ter arrecadação suficiente, justamente para poder promover tais obras e a ''reconstrução'' do país, como ele mesmo disse.

1°: O problema é que, com o corte de impostos sobre as multinacionais, especuladores (porque já se fala em desregular ainda mais Wall Street) e grandes indústrias norte-americanas, não haverá dinheiro para isso, logo, será obrigado a endividar ainda mais o Estado para cumprir nem que seja 50% da promessa de campanha.


2°: A mão de obra norte-americana é mais cara que a chinesa e mexicana, inclusive, Trump afirmou que a Apple e outras empresas que voltem a produzir diretamente nos Estados Unidos não utilizaram o mesmo ''modo de produzir'' que praticam na China.


Isso efetivamente significa o aumento do custo de produção com mão de obra e também com logística, podendo envolver até redução de estoque etc. Consequentemente o aumento de preços dos produtos de forma geral irá criar uma bola de neve (inflação, menor poder de compra, salário em grande parte comprometido com produtos básicos, diminuição do crédito).

O consumidor norte-americano está realmente disposto a passar por isso?

Na pratica não, porque o consumo a baixo custo é o que mantém a economia interna girando, caso contrário à estagnação e crise estrutural retornará mais forte do que em 2008. A falsa recuperação da economia norte-americana vem daí.

Outro exemplo é em relação aos mexicanos:

A dependência econômica crescente, principalmente desde 1994 do México em relação aos Estados Unidos, a partir do acordo TLCAN, mostra como será difícil essa mudança por parte do governo Trump, para a ''recuperação dos empregos no setor produtivo'' pelo simples fato que, também os norte-americanos, faturam alto com tais acordos de livre comércio.

Um exemplo concreto ; os carros vendidos nos Estados Unidos em sua grande maioria são fabricados no México, claro, por conta da mão de obra barata, foi exatamente essa a motivação das fabricas automotivas terem ido para lá.

É aberto, então, outro dilema:


1°:Os trabalhadores norte-americanos irão receber o mesmo valor dos operários mexicanos para produzir os carros para em troca terem seus empregos de volta (ou seja, baratear sua mão de obra).

2°: Os trabalhadores norte-americanos vão manter o valor da sua mão de obra, ao mesmo tempo em que se aumenta o custo de produção e assim o preço do carro.

3°:As fabricas vão continuar onde estão pelo bem da economia interna e os operários dessa área continuarão sem emprego.

Não há muitas alternativas, até porque é muito vantajoso para o consumo (principalmente para as empresas), na mesma medida que é completamente desastroso no que se refere ao desemprego.

De qualquer maneira, a elite continuará ganhando, pois essa classe não irá retirar a sua margem de lucro para favorecer qualquer consumidor que seja então é obvio para quem os custos serão repassados.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Reforma agrária e cooperativização:passos fundamentais rumo ao desenvolvimento rural

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A direita nacional considera a reforma agrária um ato ''socialista''. Nada mais equivocado, porque a reforma agrária nada mais é que a expropriação do latifúndio, ou seja, da organização produtiva atrasada baseada em monocultura. Redistribuindo as terras para pequenos e médios agricultores para favorecer um aumento da produção, a sua diversificação, e o favorecimento de um plantio saudável.

Todos os países capitalistas desenvolvidos fizeram a primeira parte da reforma agraria expropriando o latifúndio. 

-Num primeiro momento a nacionalização da terra seria muito importante para impedir que qualquer conglomerado estrangeiro ou empresas privadas mistas possam ter qualquer pedaço de terra no Brasil.

2°:Expropriar todo o agronegócio, ou seja, a monocultura. Promovendo dessa forma a verdadeira reforma agrária. Lembrando que 70% dos alimentos produzidos são originários da agricultura familiar (fonte: http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2015/07/agricultura-familiar-produz-70-dos-alimentos-consumidos-por-brasileiro).

3°: Ao mesmo tempo estimular e expandir a criação de cooperativas agrícolas, e que os pequenos e médios agricultores também se associem, dessa forma o trabalho e o projeto rural nacional não permanece individualista e propenso a criar novos latifúndios (isso aconteceu nos Estados Unidos, por exemplo; fonte: https://actualidad.rt.com/actualidad/217564-eeuu-diez-mayores-propietarios-tierras).

4°: O poder do agronegócio e sua influência politica vêm justamente do dinheiro, ou seja, do lucro de seus latifúndios, expropriando todos esses elementos o dinheiro acaba (ou ao menos diminui consideravelmente, já que podem ter investimentos na especulação financeira também) e com essas ações qualquer tipo de relevância que possam ter em relação ao Estado se extingue.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Nota: Strasserismo vs Hilterismo projetos econômicos distintos

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Dentro do nacional socialismo alemão havia duas alas, como se sabe, uma representada pelo hitlerismo outra tendo o nome de strasserismo.
Lendo um pouco sobre as questões econômicas de ambas, nos pormenores, aparecem algumas contradições que são significativas e ''confusas''.
Por exemplo, o hitlerismo apoiava e trabalhou pela reindustrialização da Alemanha e sua evolução. Inclusive isso também ocorreu pelo apoio que recebiam dos industriais e capitalistas nacionais. Claro, isso também foi feito pelos seus objetivos militares desde o princípio.

Já o strasserismo defendia a estagnação e por consequência o abandono do programa industrial, ainda que reivindicasse a nacionalização dos meios de produção.
O objetivo era a ''desproletarização'' do povo alemão, o socialismo de george strasser tinha como base um alemão ''agricultor'' e que não tivesse o consumo como principio de vida.
Uma analise econômica sobre essa visão fica óbvio que a primeira proposta era progressista, ainda que fosse com acordos e conciliação com os capitalistas. Porque a industrialização e o desenvolvimento tecnológico representa o fundamento básico de um país independente.
Difícil de conceber que nesse tema o strasserismo representava a ala reacionária, porque entendia a industrialização e a proletarização como um rebaixamento ao ''materialismo'' e consequentemente um espirito de consumo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A democracia burguesa Ernst Niekisch


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A democracia burguesa é uma forma básica de ''integração'', de incorporação das massas no organismo social–  sua subordinação a uma direção politica. Não é de nenhum modo a direta autodeterminação do povo tal e como tantas vezes tentam autodefini-se. É muito duvidoso que, exceto para grupos numericamente pequenos, possa chegar a ser realmente um veiculo possível para uma autodeterminação real. Na expressão '' soberania popular'' fica claramente indicado que a relação de soberania não foi de nenhuma maneira superada.

Chega-se a esta conclusão, quando contempla a democracia e seu desenvolvimento histórico como o resultado das sociais e politicas internas das Nações. Para isso, é necessário considerar sua relação com as outras formas de soberania, no caso, a monarquia e a aristocracia.

A monarquia é a soberania de uma família. Através de seu monopólio da soberania, se eleva como a família mais distinta. Ela necessita de uma grande autoridade para poder manter-se em sua posição sem ser questionada. Porém, ela só conservará sua autoridade importunada sempre e quando mostre-se como administrador e confiante dos poderes particulares elementares, assim como os interesses gerais do país.Os interesses particulares elementares são os que ortogam proteção e defesa, quando esses interesses estão no monarca, ele garante seus privilégios, este pode chegar a converter-se, para eles, inclusive, um simbolo de sua própria existência. Tão estreitamente chegavam a vincular os interesses elementares com os da família que representava a monarquia, que com esta existiam e caiam. Os extratos sociais mais baixos da população estavam expostos a exploração das classes mais privilegiadas , mas por outro lado desfrutavam de uma proteção minima que os permitia seguir existindo; e este minimo foi o que permitiu que na época permitissem se dominar pela ordem politico-social.

A aristocracia, aqui a soberania de uma nobreza hereditária, se posiciona diante a da monarquia, a soberania de um só, sobre seus próprios pés. O monarca já não é a figura representativa e organizadora de uma determinada ordem social (estamental), essa ordem social busca sustentar-se por si mesma. Os membros estamentais se guardam para si mesmos as honras que lhe eram concedidas a uma família dominante na monarquia. Eles formam um grupo mais ou menos fechado, ele sobe para um grau mais alto de distinção na sociedade. A aristocracia é o poder ordenador, a cabeça do corpo social. Todos os privilégios lhes pertencem devido a sua função diretora. É o sacrilégio, como no caso do monarca, observado em  seus atos de um modo critico pelos membros dos extratos inferiores da sociedade. As câmaras de tortura de Veneza, foram um dos meios mais terrivelmente intimidatórios para calar qualquer intenção critica. A massa é atendida como na monarquia, seu bem-estar é garantido unicamente através dos seus corpos estamentais. Falta para as massas a capacidade de proteger-se de si mesmos, carecem de um nível de preparação suficiente, são mantidos na ignorância e esse nível de dependência para com as classes superiores permitem a exploração. Para as elites, eles são o populacho estupido, inculto e incapaz de saber por sua própria capacidade o que os convém e, em sua maioria as classes populares aceitam essa ideia sobre si mesmas.


Foi uma ficção, mas uma ficção que funcionou e foi aceita como verdade. O ''povo'' foi elevado a soberania frente aos poderes anteriores, esse era a fabula usada como argumento conveniente. Na realidade o extrato social dos novos ricos, os burgueses, só haviam empurrado a aristocracia contra a parede para se colocar a si própria na parte superior, eles simplesmente mudaram a ordem da soberania ao seu favor. A ação contra os antigos senhores foi inteiramente completa, quando esses se viram forçados a integrar-se na nova ordem. Dos aristocratas, tal e como se sucedeu na Inglaterra, se tornaram a alta burguesia. Esse é o modo mediante o qual recusaram o ''povo''. Entre tanto o povo, as massas, permanecem como objeto de poder, a nova classe alta, privilegiada, não vai renunciar de nenhum modo a sua avaliação superior a favor deles.Só que agora a massa não deve perceber que ela permanece abaixo. A nova classe alta não se mostra em condição privilegiada tal e como anteriormente sucedeu com a aristocracia ou a monarquia. Ela disfarça como se fosse mais uma, ela não chama teatralmente a atenção, ela aparece como se não houvesse diferenças. Tão pouco fica inacessível, aceita de bom grado os elementos mais brilhantes e esforçados do proletariado. Não só para rejuvenescer, mas sobretudo para quitar as massas as melhores forças fazendo-as suas próprias e com isso prevenir também a aparição de qualquer movimento de oposição perigoso. Pois um esforço concentra agora a maior atenção entre a nova classe dirigente, não permitir nenhuma consciência oposicionista entre eles e a massa explorada. Cada burgues se apresenta como um ''filho do povo'', a igualdade de direitos, que é introduzida de maneira formal e pomposamente, deve estender a aparência de que todos são iguais. Com cautela desviam a visão das grandes diferenças de patrimônio, privilégios e poder, essas são tratadas como casualidades insignificantes e sem importância. A propaganda pode construir ou exagerar as histórias dos filhos do proletariado que alcançaram sua posição privilegiada. As massas devem crer que eles e a classe alta são uma coisa só, precisamente é exatamente essa sensação de unidade na qual se encontram a massa e a classe dirigente, a premissa básica da democracia é a ideia do povo como acontecimento(1). A ideia de povo une a classe dirigente e a massa,; a democracia é o aparato politico mediante o qual essa unidade(aparente) é realizada a nível institucional.

A democracia é um conceito politico originário da Grécia antiga. Naquele tempo nunca foi entendida para conceder direito aos escravos, só os cidadãos livres contavam como ''povo''. A assembleia popular, agora, era soberana, tanto que se apropriava de toda a competência em relação ao governo, cada posto administrativo podia ser ocupado por qualquer cidadão livre por votação ou por acaso. Onde as instituições funcionavam, foi intimado a todo cidadão livre que ele tinha coisas a dizer e poderia participar. Mas para os verdadeiros governantes, os ricos e poderosos, permaneciam a sombra, desde a obscuridade compravam votos, moviam seus assalariados, punham suas numerosas influencias em funcionamento  sendo os verdadeiros governantes, por cima dos incautos que viviam na fantasia de que participavam em todo aquele processo. Justamente a circunstancia de que atuaram de forma oculta, desde de onde não se podia atacar ou capturar, mas manejando as massas em publico, no marco a superioridade da democracia frente a aristocracia   ''essa perdeu sua popularidade''. A democracia era uma coisa do povo, da massa, e não uma mera questão de um eleito ou de uma minoria.

O prestigio da democracia não ficou excessivamente afetado pelo fato de que em muitos casos o grau de participação se limitara em base de critérios de nivel patrimonial. A eliminação dessas limitações que, normalmente, deveriam ter sido o caminho natural até uma verdadeira realização da ''soberania popular'', foram contempladas como degeneração, depravação, decadência e estigmatizado como oclocracia, ''o governo do populacho''. Na realidade, o governo do populacho consistia naqueles casos em que a capacidade de controle e influencia dos poderes fáticos eram interrompidos ou anulados por algum motivo, as massas ficavam liberadas e não seguiam sendo ligadas as suas obrigações para com a classe dirigente, fracassando, assim, o objetivo fundamental da democracia.
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A saudade de toda classe dirigente é manter os governados em calma, adormecer suas intenções criticas, não permitir o florescimento de duvidas sobre o sistema utilizado, impossibilitar os questionamentos e fechar a boca se for necessário. A ostentosa representação da aristocracia feudal, surpreende, intimida, faz emudecer, leva a admiração e maravilhamento aos plebeus, que assim baixam submissos a cabeça. A força exercida, a exploração se mostra suportável porque os que a exercem se impõem através da excelência de suas decorações. O que realmente se trata é marcar as diferenças ao máximo e converte-las em invioláveis. A nova aristocracia do dinheiro, em mudança, não faz uso desse aspecto imponente, ela educa parasitas e não servos submissos. Ela tem, todavia, uma necessidade maior que os antigos terratenentes de disfarce, mas neste caso, de um modo distinto. A ''soberania do dinheiro'' move os mais altos instintos do homem contra si mesmo, se contempla como dominação. Quando mostra alguma contradição contra ela, deve em seguida apaziguar, encobrindo e negando o carácter dominador da ''soberania do dinheiro'' que a democracia; de forma mais notável faz com a plutocracia.

Agora, no lugar da antiguidade, apresenta-se as democracias modernas, o parlamento; este é um comitê do povo. Esse é votado, e quanto mais generalizado o direito ao voto, mais democraticamente valido será considerado. Quando todo o cidadão maior de idade, de qualquer sexo, sem importar seu emprego ou posições, puder votar e ser votado sem reservas, será cumprido com a exigência essencial da democracia  o sufrágio universal. Todavia, a atividade politica do povo consiste em seu ato de votar, é o ato mediante o qual cede seus poderes e soberania aos eleitos. Essa concessão de poder deve ter lugar somente sobre bases convenientes; o povo em sua massa é totalmente incapaz politicamente, é necessário um órgão para ação politica, que o represente e dirija. O parlamento é esse órgão (2).

A lógica democrática exige que esse órgão seja algo mais que decorativo ou um ponto de expressão e desenvolvimento da oposição no poder, que teria controlada tal e como sucedeu na Alemanha até 1918(3). O ''Estado'' é segundo sua essência, a substancia da burocracia administrativa, judicial e militar estabelecida e organizada para a observação dos interesses de uma classe dominante; é o instrumento de dominação da classe dirigente. A democracia tem a tendencia de desmontar toda forma de vida própria para com essa burocracia. O funcionário deve ser uma mera ferramenta, sem espirito nem caráter próprio, ao serviço do Estado, que faz uma dependência sem condições do parlamento. Deve ser unicamente especialista em resolução de tarefas, mas sem pensar por si mesmo, isso faz o parlamento por ele.

Todo o povo está divido em seu seio, pelas contradições de interesses das diversas facções e sensibilidades que convivem entre si. Esses interesses encontram nos partidos e órgãos  de expressão. No parlamento é levado a cabo um compromisso de subordinação a uns determinados códigos baseados nos interesses particulares dos partidos. Esse ''interesse  geral'' vem garantido na base constitutiva dessa ordenação(A constituição) e qualquer duvida sobre isso é praticamente um ato de sacrilégio dentro da ordem democrática(5). Só os partidos que se comprometam com esses ''valores'' serão considerados como ''sérios'', aqueles partidos que não deem garantias são perseguidos, fechados ou marginalizado. Desse modo a democracia permanece como uma organização de dominação burguesa, cujo o funcionamento está garantido sempre e quando as massas não usem seu direito a voto como arma contra os interesses burgueses   é dizer, sempre e quando sigam votando nos partidos ''sérios''(constitucionais). Se isso chega a suceder, aprecem imediatamente os interesses burgueses deixando muito claro que eles não estão dispostos a permitir que se rompa a ordem sem haver reação.

A democracia burguesa moderna é a realização do sistema parlamentar(6). Essa é a maquinaria mediante a qual a determinação popular geral é transformada em poder, que fica nas mãos de uma minoria com poder decisório nos acontecimentos práticos do dia a dia. O efeito que deve ser levado a cabo é que o povo viva no convencimento de que nada acontece sem seu consentimento expresso.


NOTAS:  

(1) Na atualidade se usa mais o termo ''cidadãos'' e ''cidadania'' devido ao desgaste que sofreu a palavra ''povo'' durante os regimes nacionalistas e fascistas de meados do ´seculo xx, particularmente na Alemanha –  casualmente no idioma alemão a palavra cidadão e burgues se unem em uma só “Bürger” – e Itália.

(2) Em uma relação muito similar a da aristocracia no período feudal que governa uma massa a qual considera incapaz de saber o que lhe convém.

(3) Ano do fim da primeira guerra mundial e da caída do segundo Reich e da monarquia ''constitucional'' dos Hohenzollern, que mantinha o parlamento sob seu controle.

(4) De novo existe uma polissemia. Do mesmo modo que ''Bürger'' significa burgues e cidadão, bürgerlich significa burgueses e cidadãos(adj.). O autor joga com essa polissemia.

(5) Do mesmo modo que foi em outro tempo sacrilégio o questionamento da figura do monarca ou do aristocrata.

(6) Esse já existia anteriormente.

Traduzido de:  https://archive.org/stream/ElementosRevistaDeMetapoliticaParaUnaCivilizacionEuropeaNos.1-63/ELEMENTOSN8#page/n0/mode/2up





quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O socialismo deu certo ?

Respondendo a questão inicial de forma simples: Na maioria dos lugares onde foi colocado em pratica.

Trabalharemos com dois exemplos distintos; A  União Soviética e Cuba, o primeiro tinha riquezas naturais como petróleo e minério de ferro, por exemplo, já o segundo nunca contou com outras commodities além do açúcar e níquel para comercializar.

Mas ainda que se tenha riquezas naturais, só e possível explorara-las quando o pais conta com a infraestrutura e tecnologia necessárias para tal ação. Não era o caso da Rússia de 1917, logo após a revolução bolchevique. Na época a então recém-nascida União Soviética era  economicamente caracterizado como feudal, e pior, logo depois da revolução ocorreu uma guerra civil que devastou toda a pouca estrutura existente.

Com toda essa dificuldade, o pais não só se reconstruiu como avançou rapidamente rumo a independência e soberania industrial e tecnológica. Os planos quinquenais foram decisivos nesse sentido, pois proporcionaram a formação da infraestrutura necessária para a exploração das riquezas naturais e sua comercialização, o que consequentemente trouxe as divisas financeiras para o reinvestimento interno e a expansão produtiva.

Dois exemplos do desenvolvimento descrito:

"Produção de veículos na URSS", por Trofimchenko. 
Uma publicação do Instituto Isostat, 1935.




Gráfico econômico  do mesmo período e a produtividade da URSS em comparação com os países capitalistas.


URSS - Vermelho
Estados Unidos - Preto
Reino Unido - Azrança -verde


Em resumo, sobre a União Soviética temos o seguinte fato:''A partir do momento que, em 1928, a economia soviética tornou-se propriedade pública e planificada, até o ponto em 1989 no qual a economia foi empurrada em direção ao livre-mercado, o crescimento do PIB per capita soviético foi superior ao de qualquer outro país exceto Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Ele cresceu a uma taxa de 5,2% contra 4% para a Europa Ocidental e 3,3% para as ramificações da Europa Ocidental (EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em outras palavras, no tempo em que a economia planificada e de propriedade pública estava em prática, o registro de aumento das riquezas na URSS foi melhor que a dos principais países capitalistas industrializados. O robusto crescimento da União Soviética durante esse período é ainda mais impressionante considerando que o período inclui os anos de guerra, quando um grande ataque da Alemanha nazista deixou um rastro de destruição no caminho. Os invasores alemães destruíram mais de 1500 cidades e vilas, mais de 70000 aldeias, 31000 fábricas e 100 milhões de cabeças de gado (Leffler, 1994). O crescimento foi máximo até 1970, ponto em que a economia soviética começou a ocorrer mais devagar. No entanto, mesmo durante esse período chamado (erroneamente) de estagnação pós-1970, o PIB per capita cresceu 27% (Allen, 2003)''[1}.

O socialismo industrializou um pais feudal e o levou a ter seu próprio programa nuclear, espacial e militar. Criou uma das melhores educações públicas do mundo e anualmente formava centenas de cientistas. Ou seja, um pais independente e soberano sobre os setores estratégicos, como o militar, nuclear e cientifico.

É bom assinalar que a mesma situação foi possível em todo o leste europeu, graças a cooperação soviética e as respectivas administrações das republicas populares.

Então se era tão bom, por que acabou (no caso soviético)?

Novamente usarei da simplicidade, a resposta é a luta de classes(em suas diversas esferas), inclusive, nas escolhas erradas no que tange as prioridades no planejamento econômico. 

Que reflete diretamente na luta interna do partido, o que levou a vitória do revisionismo e o desmembramento do sistema socialista pouco a pouco com o retrocesso final tendo sido praticado por Gorbachev e que teve como resultado a restauração capitalista neoliberal.

Para mostrar que a saudades dos tempos socialistas e consequentemente soviéticos permanecem na Rússia atual( clique aqui)

CUBA

Em Cuba, por exemplo, mesmo o pais sendo pobre em recursos naturais, foi possível ter uma população com alto nível educacional e cultural e com atendimento médico gratuito e de qualidade reconhecida mundialmente para todos. Com o socialismo foi possível criar uma grande capacidade biotecnológica, resultado direto dos investimentos sistemáticos nas áreas da educação e pesquisa. Em todos os países socialistas, e, em Cuba não é diferente, a educação e a saúde são setores fundamentais para o desenvolvimento humano e social.

Lembrando que a Ilha sofre um bloqueio econômico criminoso desde 1962 dos norte-americanos, o que prejudica não só seu possível comércio com os Estados Unidos. Mas com qualquer pais do mundo, principalmente no que se refere a créditos e pagamentos, pois os bancos, seguem as regras impostas por Washington.

Um pais que, apesar das inúmeras dificuldades apontadas anteriormente, conseguiu e mantém até hoje para toda a população o acesso gratuito a todos os serviços públicos de extrema qualidade, o que é possível apontar atualmente ser uma exceção diante da crise capitalista mundial e os cortes pesadíssimos sendo feitos contra os trabalhadores e os mais pobres em grande parte dos países do mundo.



Nota:


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Nota: Sobre a economia do franquismo na Espanha(1939-1959)

A economia do franquismo na Espanha mesmo em sua fase de intervencionismo estatal que foi entre 1939-1959(Em 1951 começa a liberalização econômica, por conta da mudança geopolítica internacional e o inicio da guerra fria os Estados Unidos concede empréstimos generosos) tem como principio o favorecimento ao setor privado.

Diga-se de passagem, o franquismo num primeiro ''momento'' aceitou que o Estado fosse mais ativo na economia pelo fato do pais estar completamente destruído. Portanto, não havendo naquelas circunstancias possibilidades da iniciativa privada agir de maneira preponderante.

A economia, assim como outros setores, eram administrados por tecnocratas(mais ou menos até 1956).

O resultado desse período (1939-1951) foi essencialmente uma economia de subsistência e racionamento. Diferentemente de outros países da região, a Espanha não conseguiu desenvolver sua indústria, tecnologia e agricultura para exportação. Só começou a obter resultados positivos a partir dos empréstimos estrangeiros, em contrapartida, começaram a abrir o pais economicamente.

A partir dessa data (1951), as multinacionais começam a entrar economia do pais e dominam setores importantes. Formando monopólios estimulados e apoiados diretamente pelo franquismo.
Com o controle dos sindicatos, o Estado conseguiu congelar os salários, proibir as greves e por consequência fornecer uma mão de obra barata(até certo ponto) e sem qualquer tipo de organização e mobilização trabalhista.

A hora da economia colaborativa

O avanço desta nova economia e a explosão de um novo modo de consumir parecem imparáveis.

Ignacio Ramonet
reprodução










A economia colaborativa é um modelo econômico baseado no intercâmbio e na oferta de bens e serviços mediante o uso de plataformas digitais. Se inspira nas utopias de compartilhamento e em valores não mercantis, como a ajuda mútua ou a convivialidade, e também no espírito de gratuidade, mito fundador da Internet. Sua ideia principal é “o que é meu é seu”, ou seja, compartilhar em vez de possuir. O conceito básico é a troca. Se trata de conectar, pela via digital, aqueles que buscam “algo” com as pessoas que oferecem esse algo. Entre as mais conhecidas empresas que exercitam essa prática estão Netflix, Uber, Airbnb, Blabacar, etc.
 
Trinta anos depois da expansão massiva da web, os hábitos de consumo mudaram. Se impõe agora a ideia de que a opção mais inteligente hoje é usar algo em comum, e não necessariamente comprá-la. Isso significa ir abandonando pouco a pouco uma economia baseada na submissão dos consumidores e no antagonismo ou na competição entre produtores, e passar a um sistema que estimula a colaboração e o intercâmbio entre os usuários de um bem ou de um serviço. Tudo isto planteia uma verdadeira revolução no seio do capitalismo, que está acontecendo bem diante dos nossos olhos, uma nova mutação.
 
Imaginemos que, num domingo, você decide realizar um trabalho caseiro de reparação em sua casa. Precisa fazer alguns furos numa parede, mas não tem uma furadeira. Vai sair de compras num dia de descanso? Difícil. Então… o que fazer? E você mal sabe que a poucos metros de onde você mora há várias pessoas dispostas a lhe ajudar. Não saber disso é como se essas pessoas não existissem. Porém, que tal se existe uma plataforma digital que informe sobre isso? Que diga que ali pertinho vive um sujeito, quase um vizinho, disposto a lhe permitir usar sua furadeira, ou a informar a esse quase vizinho que você, pessoa necessitada de ajuda, está disposta a pagar por essa colaboração?
 
Essa é a base da economia colaborativa e do consumo colaborativo. Você evita gastar dinheiro para comprar uma furadeira, que talvez jamais terá que usar novamente, e um vizinho fatura uma grana que lhe ajuda nas contas do mês. O planeta também ganha, porque não precisa mais fabricar tantas ferramentas individuais que quase não serão usadas – e maltratar o meio ambiente, por consequência –, já que a lógica passa a ser a de compartilhar. Nos Estados Unidos, por exemplo, há cerca de 80 milhões de furadeiras cujo uso médio, em toda a vida útil da ferramenta, é de apenas 13 minutos. Assim, se reduz o consumismo. Se cria um espaço e uma vizinhança mais sustentável, e se evita um desperdício, porque o que se precisa de verdade é do furo, não da furadeira.

É um movimento irresistível, milhares de plataformas digitais de intercâmbio de produtos e serviços estão se expandindo a toda velocidade – um exemplo é o site espanhol consumo colaborativo: http://www.consumocolaborativo.com/. A quantidade de bens e serviços que podem ser criados ou renovados através destas plataformas online, sejam pagos ou gratuitos (como Wikipedia), é literalmente infinita. Só na Espanha, há mais de quatrocentas plataformas que operam em diferentes categorias, e 53% dos espanhóis declaram estar dispostos a compartilhar ou a alugar bens num contexto de consumo colaborativo. 
 
A nível planetário, a economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimento absolutamente espetaculares. Por exemplo, o Uber. O aplicativo digital que conecta os passageiros com os motoristas vale hoje 68 bilhões de dólares e opera em 132 países, e conseguiu isso em apenas cinco anos de existência. Por sua parte, Airbnb, a plataforma online de alojamentos para particulares, surgida em 2008, já encontrou cama para mais de 40 milhões de viajantes, e seu valor na bolsa é de mais de 30 bilhões de dólares – sem ser dona de sequer um dos quartos que oferece. Como empresa, o Airbnb já vale mais que o Hilton, o maior grupo hoteleiro do mundo, e também supera a soma dos valores dos outros dois grupos que compõem o pódio do mundo dos grandes hotéis: Hyatt e Marriot.
 
O sucesso destes modelos de economia colaborativa impõe às empresas tradicionais um grande desafio. Na Europa, Uber e Airbnb vem chocando de frente contra o mundo dos táxis e da hotelaria tradicional, respectivamente. São acusados de concorrência desleal. Mas nada poderá parar uma mudança que, em grande medida, é a consequência da crise de 2008 e do empobrecimento geral da sociedade. É um caminho sem retorno. Agora, as pessoas desejam consumir a menor preço, e também dispor de outras fontes de renda inconcebíveis antes da Internet. Com o consumo colaborativo, cresce também o sentimento de ser menos passivo, mais partícipe do jogo. E a possibilidade da reversibilidade, da alternância de funções, poder passar de consumidor a vendedor ou alugar, e vice-versa. O que alguns chamam de “prossumidor”, uma síntese de produtor e consumidor – conceito que aparece pela primeira vez no livro de Alvin Toffler, “A Terceira Onda”.
 
Outra característica fundamental desta nova relação econômica é a desmitificação do sentido de propriedade, e do desejo de posse, que foi simplesmente a base da sociedade de consumo. Adquirir, comprar, ter e possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambição essencial de uma época na que a propriedade definia quem a pessoa era. Acumular coisas, moradias, carros, geladeiras, televisores, móveis, roupa, relógios, quadros, telefones, etc… essa era a principal razão da existência. Parecia que, desde a alvorada dos séculos, o sentido materialista era inerente ao ser humano. Recordemos que George W. Bush ganho as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 2004, prometendo uma “sociedade de proprietários”, e repetindo: “quantos más proprietários haja em nosso país, mais vitalidade econômica haverá”.
 
Erro duplo. Primeiro, porque a crise de 2008 destroçou essa ideia de que se havia estimulado as famílias a serem proprietárias, e os bancos, embriagados pela especulação imobiliária, passaram a emprestar dinheiro (as famosas subprimes) sem a mínima precaução. Foi assim que tudo começou. Os bancos hipotecários quebraram, até o próprio Lehman Brothers, um dos estabelecimentos financeiros aparentemente mais sólidos do mundo.
 
O segundo erro foi não perceber que, discretamente, novas iniciativas nascidas na Internet começaram a dinamitar a ordem econômica estabelecida. Por exemplo: Napster, uma plataforma para compartilhar música, que provocaria, em pouco tempo, a devastação de toda a indústria musical, e a quebra dos megagrupos multinacionais que dominavam o setor. O mesmo aconteceria com a imprensa, os operadores turísticos, o setor hoteleiro, o mundo dos livros e da edição, a venda por correspondência, o cinema, a indústria automobilística, o mundo financeiro e até mesmo o do ensino universitário, graças aos MOOC (sigla em inglês dos Cursos Online Abertos Massivos), e que foram usados por cerca de seis milhões de estudantes, nos últimos dois anos.
 
Num momento como o atual, de forte desconfiança sobre o modelo neoliberal e os interesses das elites políticas, midiáticas, financeiras e bancárias, a economia colaborativa oferece também respostas aos cidadãos que buscam um sentido de ética responsável. Exalta valores de ajuda mútua e critérios que, em outros momentos, foram a argamassa das utopias comunitárias e dos idealismos socialistas – mas que hoje são o novo rosto de um capitalismo mutante, que deseja se afastar do selvagismo impiedoso do recente período ultraliberal.
 
Neste amanhecer da economia colaborativa, as perspectivas de sucesso são inéditas, porque, em muitos casos, já não são mais necessárias as indispensáveis alavancas do capital inicial e do apoio de investidores. Basta ver o exemplo do Airbnb, que ganha milhões a partir de uma plataforma de alojamentos que sequer são de sua propriedade.
 
Com respeito ao emprego, numa sociedade caracterizada pela precarização e pelo trabalho instável e mal remunerado, cada cidadão pode agora apostar na disposição de bens e serviços como forma de melhorar sua renda, utilizando seu computador, ou até mesmo um telefone celular, sem depender de um empregador, apenas sendo um intermediário, que compartilha, aluga, empresta ou troca um serviço por outro. Coisa nada nova na economia, existe desde o início do capitalismo, mas agora em maior escala, e com a ajuda de poderosos algoritmos que, quase instantaneamente, calculam ofertas, demandas, fluxos e volumes, novas tecnologias que analisam e definem os ciclos de oferta e procura, dando ao novo sistema uma tremenda eficiência.
 
Por outro lado, num contexto no qual a crise climática se tornou a principal ameaça para a sobrevivência da humanidade, os cidadãos não estão alheios aos perigos ecológicos inerentes do modelo de hiperprodução e hiperconsumo globalizado. Neste sentido, a economia colaborativa também oferece soluções menos agressivas para o planeta.
 
Poderá mudar o mundo? Poderá transformar o capitalismo? Muitos indícios nos conduzem a pensar, junto com el ensaísta estadunidense Jeremy Rifkin (no livro “Sociedade com Custo Marginal Zero”), que estamos assistindo o ocaso da segunda revolução industrial, baseada no uso massivo de energias fósseis e sistemas centralizados de telecomunicação. Vemos a emergência de uma economia colaborativa que obriga o sistema capitalista a mutar. Por enquanto, as duas formas mantêm um regime de coexistência: uma economia de mercado depredadora por um lado, dominada pelo sistema financeiro brutal, e por outro uma economia de compartilhamento, baseada nas interações entre as pessoas e no intercâmbio de bens e serviços quase gratuitos – embora a dinâmica esteja decididamente a favor desta última.
 
Ainda estão pendentes muitas tarefas: garantir e melhorar os direitos dos e-trabalhadores, regular o pagamento de taxas e impostos das novas plataformas, evitar expansão da economia submersa – o mercado negro deste tipo de atividade –, entre outras. Mas o avanço desta nova economia e a explosão de um novo modo de consumir parecem imparáveis. Fatos que revelam o anseio de uma sociedade exasperada pelos estragos do capitalismo selvagem, e que aspira de novo, como reclamava o poeta Rimbaud, uma grande mudança de estilo de vida.
 
Tradução: Victor Farinelli